Dívida pública sobe a 81,9% do PIB e atinge maior desde 2021

A dívida pública do Brasil atingiu 81,9% do PIB em junho, maior nível em mais de cinco anos, segundo dados divulgados pelo Banco Central.

Rafael Neddermeyer

Crédito: Rafael Neddermeyer

A dívida pública brasileira subiu 10,2 pontos percentuais ao longo da atual gestão federal e atingiu 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em junho de 2026. Os dados divulgados pelo Banco Central representam o maior patamar em mais de cinco anos, aproximando o país do recorde histórico registrado durante a crise sanitária da Covid-19.

O indicador reflete o montante total das obrigações financeiras assumidas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Investidores tratam esse índice como o principal termômetro da capacidade do país de honrar compromissos futuros.

Trajetória da dívida pública e pressão sobre a economia

O salto para R$ 10,8 trilhões de endividamento consolidado impacta diretamente o setor produtivo. O mercado financeiro cobra taxas mais altas para financiar o governo, movimento que encarece o crédito disponível para empresas e famílias brasileiras e restringe o crescimento nacional.

O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, alertou diversas vezes sobre essa dinâmica econômica. “A dívida não é alta porque o juro é alto. É o contrário, o juro é alto porque a dívida é alta”, explicou Campos Neto, ressaltando a análise de risco feita pelos credores institucionais.

Comparação internacional sob o critério do FMI

Os números assumem proporções maiores quando analisados pelo padrão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que inclui os títulos públicos na carteira da autoridade monetária. Sob essa metodologia de cálculo, a dívida nacional encerrou 2025 em 93,4% do PIB, isolando o Brasil da realidade das demais economias emergentes.

A média dos países da América Latina situou-se em 71,1% do PIB no mesmo período. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, argumenta que o país possui diferenciais que atenuam o risco, citando a baixa exposição em dólar e a robustez do mercado financeiro doméstico como fatores de estabilidade.

Fatores que impulsionaram a expansão das despesas

O avanço da dívida pública nos últimos três anos resulta de uma série de medidas estruturais que ampliaram permanentemente os gastos federais. A PEC da Transição liberou R$ 170 bilhões anuais antes mesmo do início do atual mandato presidencial.

Outros vetores de pressão incluem a retomada do reajuste real do salário mínimo e a vinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação ao crescimento da receita. O governo também desembolsou R$ 92,3 bilhões para o pagamento de precatórios atrasados entre o final de 2023 e o início de 2024.

A equipe econômica concedeu aumentos para cerca de 100 categorias de servidores, recompondo perdas inflacionárias. Essas ações conjuntas elevaram a despesa obrigatória e anularam parte dos esforços de arrecadação capitaneados pelo Ministério da Fazenda.

Evolução do endividamento por mandatos

A série histórica revela flutuações expressivas nas últimas duas décadas. Houve queda de 11,5 pontos do PIB no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e estabilidade relativa até 2014. O quadro reverteu-se com uma alta de 10,7 pontos no segundo governo de Dilma Rousseff.

A gestão de Michel Temer adicionou 12,5 pontos ao indicador, enquanto o governo de Jair Bolsonaro registrou recuo de 0,8 ponto, absorvendo os impactos dos R$ 660 bilhões em despesas extraordinárias para combater a pandemia.

Exigência de cortes e foco no superávit primário

A Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta que o governo precisa registrar superávits primários acima de 2% do PIB para estabilizar a dívida pública a médio prazo. O novo arcabouço fiscal, desenhado para limitar o crescimento dos gastos reais a 2,5% ao ano, enfrenta ceticismo do mercado devido a exceções contábeis e metas não atingidas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconhece o peso dos juros no orçamento federal, mas sinaliza compromisso com o ajuste gradual das contas públicas. “Nós vamos fazer isso estruturalmente. É preciso ser feito de maneira que a gente siga crescendo e comece a gerar resultado primário positivo”, afirmou o ministro.

Analistas econômicos reforçam que a estratégia baseada em aumento de impostos esgotou seu fôlego viável. O controle efetivo da dívida pública depende agora de cortes contundentes na máquina administrativa para restabelecer a confiança dos investidores e garantir um ciclo sustentado de queda nos juros.

  • Publicado: 31/07/2026 11:26
  • Alterado: 31/07/2026 11:26
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: Assessoria