“Supergirl” fica no quase, mas entrega uma heroína que justifica a sessão
Sustentada por uma atuação magnética de Milly Alcock, a estreia da prima do Superman acerta na origem, mas tropeça na coragem de ousar
- Publicado: 24/06/2026 16:37
- Alterado: 24/06/2026 16:37
- Autor: João Pedro Mello
- Fonte: ABC do ABC
Abertura
Há filmes que precisam vencer a própria sombra antes da primeira cena, e “Supergirl” é um deles, justamente por vir logo após “Superman” que reabriu a casa, e o risco de não passar de eco do primo paira sobre cada plano. O que se vê na tela vai por outro caminho, e nem sempre para melhor: em vez da fórmula solar e otimista, a direção aposta numa aventura suja, áspera e melancólica. A intenção é boa, mas o resultado fica num meio-termo curioso. Saí da projeção convencido da heroína, embora não exatamente do filme ao redor dela.
O tom é cravado logo na abertura, quando encontramos Kara Zor-El (Milly Alcock) comemorando o aniversário de 23 anos num planeta de sol vermelho, bebendo e dançando sozinha enquanto o Krypto observa de longe. A escolha de começar por uma heroína que foge dos próprios poderes para se entorpecer já diz tudo sobre a proposta. Não há pose triunfal nem música épica, apenas uma jovem perdida tentando anestesiar uma dor antiga. É uma entrada corajosa, talvez a melhor cena do filme inteiro.

A premissa adapta “Mulher do Amanhã”, de Tom King, mas escolhe se aprofundar até certo ponto e não muito além disso. Kara cresceu na Argo City, protegida sob uma cúpula, e viu todos ao redor morrerem aos poucos pela radiação. Numa fala que ecoa o trailer, ela resume o horror dizendo que os deuses não são tão bondosos, porque a morte não veio de uma vez. Esse trauma a deixa muito mais marcada que o primo criado por uma família amorosa na Terra.
O gancho da trama se arma quando a pequena Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley) cruza o caminho de Kara atrás de vingança pela morte do pai, morto pelo cruel Krem das Colinas Amarelas (Matthias Schoenaerts). O que era para ser uma missão simples vira uma odisseia interestelar, com a heroína, a menina e o Krypto saltando de planeta em planeta. A estrutura lembra de propósito “Bravura Indômita”, com Kara no lugar do velho caçador e Ruthye na criança sedenta por desforra. A ideia é ótima no papel, mas a execução nem sempre acompanha.
Convém ajustar a expectativa, porque este é um filme de médio pra bom, e nada além disso. Há momentos que prometem mais do que entregam, sobretudo um senso de urgência que, no fim, não soa tão urgente quanto deveria. O tom mais pesado e sombrio agrada a uns e afasta a outros, e essa instabilidade contamina o conjunto. É um longa que se discute depois com prazer, mesmo sem sair da sala em êxtase.
A dor como combustível
A melhor aposta de “Supergirl” é tratar o trauma não como detalhe de origem, mas como o motor de tudo o que a personagem faz. Kara passa boa parte do tempo fugindo de si mesma, preferindo planetas de sol vermelho onde perde os poderes e pode beber até esquecer quem é. A cena do aniversário solitário funciona como uma declaração de princípios do filme. É aqui que a obra encontra seu material mais forte, e não por acaso. Essa escolha joga o longa num território raro para o gênero, em que a vulnerabilidade vem antes do heroísmo. Em vez de uma salvadora pronta, encontramos alguém que precisa primeiro encarar a própria ferida para conseguir agir. O roteiro de Ana Nogueira se aprofunda nesse luto, mas para no meio do caminho, sem ir tão fundo quanto poderia. Confesso que nem sei se deveria ir, porque um filme de origem tem outras contas a fechar antes de mergulhar de vez.
“Em vez de uma salvadora pronta, encontramos alguém que precisa primeiro encarar a própria ferida para conseguir agir.”
O estopim emocional vem cedo e é cruel: logo de cara, Krem atravessa o Krypto com uma flecha de besta, deixando o cachorro envenenado e à beira da morte. A partir daí, boa parte da missão de Kara é correr atrás do antídoto que pode salvar o único companheiro que lhe restou. O problema é que senti falta do próprio Krypto em cena, algo que os trailers já anunciavam ao deixá-lo de fora por boa parte da trama. O cão é o motor afetivo da história, mas passa tempo demais ausente da tela.

A relação entre Kara e Ruthye deveria dar o calor humano que equilibra tanta frieza, e aqui mora um tropeço. A menina, que perdeu o pai para o mesmo vilão, funciona como espelho da heroína, mas achei a personagem morna, sem a faísca que a dupla pedia. Há uma troca pungente em que Ruthye pergunta como foi ver todos morrerem ao mesmo tempo, e Kara responde que a verdade foi pior. Aqui, a cena funciona, mas a sidekick raramente alcança o brilho da protagonista ao lado dela.
Os melhores instantes, aliás, são os mais quietos: os momentos ternos entre Kara e o pai, Zor-El (David Krumholtz), nos flashbacks da Argo City. Sem esse núcleo emocional, a jornada da heroína dificilmente se sustentaria. O trailer ainda escolhe “What Becomes of the Brokenhearted” como tema, espelhando o coração partido de Kara e de Ruthye. Quando o filme confia nessas pausas, ele acerta em cheio, ainda que não as aproveite o bastante.
Milly Alcock encarna o papel
Se há um consenso em “Supergirl”, está no fato de que Alcock carrega o filme praticamente sozinha nas costas. Portanto, não se discute que a estrela de A Casa do Dragão, entrega uma Kara debochada, brava e bagunçada, mas luminosa e impossível de não admirar do começo ao fim. Ela consegue transitar livremente entre a vulnerabilidade e a fúria com um controle raro para alguém tão jovem. É nessa atuação que mantém a obra de pé exatamente quando o roteiro vacila.
Nada resume melhor essa Kara do que a cena do bar, em que ela quebra a mão de um alienígena num braço-de-ferro e provoca a sala inteira. Cercada por miras de laser por todos os lados, ela afasta Ruthye com calma, vira uma mesa para proteger a menina e despacha os capangas um a um. A sequência condensa tudo o que a heroína é: provocadora, perigosa e, no fundo, protetora. A atriz domina cada segundo dessa bagunça com um sorriso de quem não teme nada.

Curiosamente, a própria intérprete viveu fora das telas um eco do arco da personagem. Mesmo já consagrada na televisão, ela teve de fazer um teste presencial que descreveu como assustador, e topou o desafio justamente por ele lhe dar medo. Encarar esse receio de frente é exatamente o que Kara precisa aprender na ficção. Essa identificação genuína transparece na tela e dá à interpretação uma camada de verdade rara.
A força dessa entrega ganha ainda mais relevo diante da pressão que cercou a escalação e as declarações dela antes da estreia. Em vez de recuar, seguiu firme na leitura de uma heroína imperfeita e ainda assim inspiradora, e o estúdio saiu publicamente em sua defesa. A aposta deu tão certo que a DC já a confirmou de volta em “Homem do Amanhã”, e, seja qual for o destino deste filme, é em torno dela que o futuro pretende crescer.
O elenco de apoio rende momentos bons e outros nem tanto. Lobo (Jason Momoa) se diverte mascando charuto e pilotando sua Spacehog com uma caveira no para-choque, mas sua participação é enxuta demais para o tamanho do carisma. Quando ele aparece, a tela ganha energia, e o problema é o quanto a gente fica esperando por ele. Fica a impressão de um personagem reservado para render mais nos próximos capítulos do que especificamente neste.
A sombra de Gunn sob a mão do diretor
Mesmo sem assinar a direção, James Gunn está presente em cada poro de “Supergirl”, e isso se sente logo na trilha sonora. A escolha de pontuar os embates com músicas pop, marca registrada dos “Guardiões da Galáxia”, virou quase uma assinatura do mandachuva da DC. Aqui ela reaparece nos momentos de luta, dando ritmo às cenas mesmo quando a coreografia não empolga. É um DNA difícil de ignorar, para o bem e para o discutível.
Visualmente, Craig Gillespie constrói planetas sujos, gastos e cheios de criaturas, num registro que muitos compararam a “Mad Max”, mas fica difícil saber o que é dele e o que foi imposto por Gunn. A direção soa confusa, sem uma identidade própria que se imponha: ora aposta em produção física e criaturas práticas, com aquele bar lotado de aliens que ganha peso por parecer construído de verdade, ora se rende ao verniz de blockbuster genérico que destoa do resto. Falta a mão autoral que ele mostrou em trabalhos anteriores, engolida por um projeto maior. O resultado é um filme tecnicamente caprichado, porém órfão de um olhar que se assuma como seu. Quando a estética áspera funciona, parece mais acerto de produção do que assinatura de diretor.
“Falta a mão autoral que ele mostrou em trabalhos anteriores, engolida por um projeto maior.”
O calcanhar de Aquiles, porém, é a ação, o filme se apoia nos chamados needle drops, que são as costuras e inserções de música pop em blocos, que por aqui deveriam empolgar, porém soam mornas em boa parte das sequências. Nem toda cena de luta ganha vida, e some-se a isso aquele senso de urgência por conta do cãozinho Krypto estar sob risco, e que prometia mais do que a entrega. Quando o filme acelera, ele diverte de forma irregular, longe da fluidez que o gênero costuma oferecer.

O contraste entre a fragilidade emocional e a potência física continua sendo um trunfo de conceito. Vê-la voar com um sobretudo por cima do uniforme, ou encarar um oponente inabalável como Lobo, reforça a ideia de uma heroína que vence mais pela astúcia do que pela truculência. O problema é que as cenas grandes nem sempre traduzem essa ideia com impacto. A intenção é clara, mas a execução fica devendo nos momentos decisivos.
O ponto mais frágil talvez esteja no vilão. Krem é uma ameaça funcional, porém rasa, nos moldes daqueles antagonistas descartáveis como visto no primeiro filme de “Deadpool”, da concorrente Marvel, e que existem só para a heroína ter um mal para sobrepujar. Líder de um bando de piratas espaciais, ele assusta nos gestos cruéis, como ferir o Krypto sem pestanejar, mas não tem profundidade para sustentar a vingança que move a trama. Num filme de origem isso atrapalha menos, mas ainda assim deixa um vácuo no centro do conflito.
Ofício técnico
No quesito fotografia, “Supergirl” faz uma escolha clara e a sustenta ao trocar o brilho dourado do gênero pela luz fria e gasta dos confins do espaço. Os planetas de sol vermelho ganham uma palidez doentia que combina com uma Kara entorpecida, enquanto a Argo City do universo do Superman, sob a cúpula surge banhada por uma claridade nostálgica nos flashbacks. O contraste entre esses dois registros de luz conta a história sem uma palavra. É um trabalho competente, ainda que às vezes a paleta acinzentada canse a vista do espectador.
A trilha é, ao mesmo tempo, o charme e a muleta do filme. As músicas pop costuradas aos embates dão personalidade imediata, mas também denunciam quando a cena de ação não se sustenta sozinha. Por baixo das faixas escolhidas a dedo, a partitura original trabalha bem os momentos íntimos, sublinhando a dor de Kara sem apelar para o melodrama. É nas pausas, e não nas explosões, que a música deste longa mais acerta.

No elenco, o desnível é evidente. Alcock entrega uma protagonista de primeira linha, Krumholtz comove nos breves momentos como Zor-El e Momoa injeta energia sempre que aparece como Lobo. Do outro lado da balança, Ridley soa contida demais como Ruthye e Schoenaerts não recebe material para fazer de Krem mais que um obstáculo. É um time afinado nas pontas e irregular no miolo, o que afeta o conjunto.
O clima geral é a maior aposta da obra, e talvez seu traço mais divisivo. “Supergirl” quer ser melancólico, sujo e adulto, uma road movie cósmica de luto e vingança, e na maior parte do tempo consegue criar essa atmosfera. O problema é que o tom pesado nem sempre encontra cenas à altura, gerando trechos em que a gravidade soa maior que o que está acontecendo. Quando forma e conteúdo se alinham, porém, o resultado é genuinamente envolvente.
Somando as partes técnicas, fica a imagem de um filme caprichado, mas sem um acabamento que o eleve acima do correto. A direção de arte e a textura prática impressionam, a luz é coerente e a trilha é bonita, só que a montagem da ação deixa a desejar. De fato, existe sim a escolhas de gente que sabe o que faz, mas que pisou no freio antes da ousadia total. O capricho está lá, falta o arroubo que separaria o bom do memorável, ou mesmo, o tal “algo a mais”.
O outro lado de Krypton
Quem carrega o peso da mitologia kryptoniana ainda é o Superman, e “Supergirl” sabe disso, sem tentar usurpar esse lugar. O grande acerto do filme é viver à sombra dessa história maior, preenchendo pontos que estavam vazios na cronologia de Kal-El. É como olhar a mesma saga de outro ângulo, pelos olhos de quem viveu a tragédia de Krypton de um jeito muito mais cruel. Esse recorte dá ao longa uma razão de existir além do óbvio.
A imagem que melhor resume isso é a do contraste entre os dois primos. Enquanto o bebê Kal-El parte numa nave rumo a uma Terra acolhedora, Kara fica para trás, encarando um mundo que desaba aos poucos ao seu redor. Um foi salvo cedo e cresceu amado, enquanto a outra viu tudo ruir em câmera lenta, sob outra perspectiva. O filme transforma essa diferença de origem em sua tese central, e faz isso com inteligência.
É por esse olhar que a personagem ganha contorno próprio dentro da DC. Se o primo enxerga o bem em todos porque foi criado para isso, Kara enxerga a verdade porque a vida não lhe deu escolha. A breve participação de Clark Kent (David Corenswet), ligando da Fortaleza da Solidão para saber quando ela volta à Terra, define a relação dos dois sem precisar de exposição. É uma ponte sutil entre os dois filmes, e das mais felizes.

Como obra de origem, “Supergirl” cumpre bem a tarefa de apresentar a heroína e fincar seu lugar no universo. O detalhe de Krypto pertencer agora a ela, e não ao primo, reorganiza a mitologia de um jeito que serve à história. As escolhas respeitam tanto o recém-chegado, quanto o fã antigo e assim, o filme não reinventa a roda, mas encaixa a peça que faltava com o máximo de cuidado.
O senão é que, sabendo o que tinha em mãos, ele poderia ter arriscado mais. Há um teto de ousadia que o filme escolhe não ultrapassar, talvez pela própria natureza de uma história de estreia. Não é defeito grave, e até entendo a contenção, mas fica a sensação do quase. Com um empurrão a mais de coragem, esta origem teria saído do correto para o memorável.
Fechamento
Quando os créditos sobem, fica a sensação de um filme que tinha tudo para ser ótimo e parou no médio pra bom. “Supergirl” não é o tropeço que alguns temiam, nem o triunfo que outros anunciaram, mas exatamente esse meio-termo honesto. A direção e o roteiro escolheram a emoção em vez do espetáculo fácil, só que não sustentaram a aposta do início ao fim. É um capítulo que diverte sem empolgar, e que se discute mais do que se celebra.
O que salva tudo, do começo ao fim, é Alcock. Sua entrega dá peso aos momentos de dor e brilho aos de fúria, segurando o filme exatamente quando a trama desanda. Ver a atriz superar a pressão de bastidores e ainda assim cravar o papel torna o feito ainda mais admirável. É uma performance que merecia um roteiro à sua altura, e que vai definir a personagem por muito tempo.
Os defeitos são reais e seria desonesto escondê-los. O vilão raso nos moldes de “Deadpool”, a ação morna, a Ruthye apagada, o Lobo enxuto e a urgência que não pulsa impedem o filme de chegar à grandeza que persegue. Senti falta até do Krypto em tela, ausente por boa parte da história. São tropeços que, somados, prendem o longa na faixa do “quase lá”.

Ainda assim, há valor real embaixo da poeira espacial. A perspectiva de Kara sobre a queda de Krypton, os momentos quietos com o pai e o preenchimento das lacunas de Kal-El dão ao filme um propósito que muita origem não tem. Quando ela encara o mundo desabando enquanto o primo é salvo, vemos a heroína trágica que sustenta tudo. É esse olhar, mais que as grandes lutas, que faz o ingresso valer a pena.
No fim, Supergirl é exatamente como Kara, um pedaço de Krypton de onde veio, rachada e à deriva, mas teimosamente inteira o bastante para reluzir. Falta-lhe o sol amarelo na medida certa, essa luz que transforma fraqueza em força e que o filme ao redor dela só encontra aos lampejos. Sobra-lhe o verde da kryptonita por toda parte: o vilão raso, a ação morna, a urgência que não pulsa, pedras que a puxam para baixo quando ela quase decola.
Ainda assim, há algo de comovente em ver uma heroína forjada na perda recusar-se a apagar, mesmo cercada por aquilo que a enfraquece. Quando a poeira espacial assenta, fica menos a lembrança de um clássico e mais a certeza de uma promessa: a de que, sob o sol certo e longe do brilho verde, esta moça de capa surrada e vermelha ainda vai nos fazer olhar para cima.
FICHA TÉCNICA
Título: Supergirl (2026)
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira (baseado na HQ de Tom King e Bilquis Evely)
Elenco: Milly Alcock, Eve Ridley, Matthias Schoenaerts, Jason Momoa, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet
Produção: James Gunn, Peter Safran
Distribuição: Warner Bros. Pictures / DC Studios
Estreia (Brasil): 25 de junho de 2026