Crianças Offline: saúde mental e o uso de telas

No 3º episódio da série "Crianças Offline", trouxemos especialistas para falar sobre os impactos do uso de telas na saúde mental de crianças e adolescentes

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No terceiro episódio do “Crianças Offline”, iremos tratar um assunto fundamental e que exige atenção de todos: saúde mental em crianças e adolescentes. O período em que a infância e a adolescência eram reservadas predominantemente ao estudo e ao lazer ao ar livre passou por intensas transformações. Sentimentos de ansiedade, tristeza e frustração tornaram-se rotina entre os mais jovens, acendendo um alerta global na área de saúde pública. Entre as mudanças do estilo de vida contemporâneo, a hiperconectividade e a exposição excessiva a dispositivos digitais surgem como fatores determinantes no bem-estar psíquico, impactando de forma direta na saúde mental na juventude.

A relação entre o ambiente digital e o adoecimento psíquico ganha embasamento técnico e epidemiológico em pesquisas recentes. Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificou que 72% das crianças avaliadas apresentaram aumento de quadros depressivos associados ao uso contínuo de dispositivos. A pesquisa também registrou prejuízos no desenvolvimento cognitivo, apontando a diminuição do Quociente de Inteligência (QI) em decorrência do consumo exagerado e desregulado de celulares, computadores e videogames, o que reforça os riscos do cenário para a saúde mental infantil.

Alterações no cérebro e no sistema de recompensa

Ansiedade e depressão na infância e na adolescência estão ligados ao uso excessivo de telas? (Freepik)
Ansiedade e depressão na infância e na adolescência estão ligados ao uso excessivo de telas? (Freepik)

Os mecanismos neurobiológicos ajudam a explicar essa vulnerabilidade. O consumo de vídeos curtos e a navegação em conteúdos com rolagens infinitas ativam continuamente o sistema de recompensa cerebral. Essa superestimulação gera reforços imediatos que, com o tempo, levam à dessensibilização — exigindo um volume cada vez maior de estímulo virtual para atingir a mesma sensação de bem-estar.

Esse padrão interfere na capacidade de controle inibitório, na regulação emocional e na manutenção da atenção prolongada. Especialistas destacam que o impacto na saúde mental depende do tipo de conteúdo e da idade em que o acesso é iniciado:

  • Infância precoce: Quanto mais cedo a criança é exposta ao uso passivo e desmedido de dispositivos, maior é o prejuízo na maturação do controle inibitório e da capacidade atencional.
  • Adolescência: O tempo de tela contínuo pode atuar como um refúgio em relação às frustrações do mundo físico. Contudo, a substituição da convivência presencial por interações virtuais fragiliza o aprendizado de habilidades socioemocionais.

Gabriela Crenzel, do Grupo de Trabalho de Saúde Mental da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria)  destaca que os principais gatilhos são as interações com violência. “Comportamento desrespeitoso entre membros da família, quando a gente percebe que a criança não tem espaço de conversa dentro de casa, quando não existe tempo de qualidade com a família”, pontua.

Ela complementa que ambiente com excesso de cobrança e de pressão por parte da família é tão grave quanto o excesso de telas. “A falta de previsibilidade é algo que deixam as crianças inseguras e são gatilhos para o adoecimento”, reforça a especialista.

Vinicius Spazzapan, neuropediatra, Médico Pediatra e Neurologista Infantil. Pós- graduando em Semiótica Psicanalítica pela PUCSP, também corrobora que o uso excessivo de telas afeta quando começa a substituir o sono, movimento, brincar, estudo e convivência. “Não importa quantas horas a crianças permanece conectada, mas também o que consome, qual horário, com quem e como se sente depois”, explica.

“As relações humanas envolvem diferenças, desencontros, espera e o risco de não sermos compreendidos. No ambiente digital, é possível escolher com quem falar, encontrar pessoas semelhantes, editar aquilo que será mostrado e interromper a interação quando ela se torna desconfortável. Isso pode trazer alívio e pertencimento, mas também pode transformar a tela em um abrigo contra qualquer angústia. Por isso, a depressão pode se esconder atrás do excesso de uso e esse comportamento pode se apresentar com a criança permaneça cada vez mais no quarto, abandona brincadeiras, esportes e encontros, deixa de conversar com a família, inverte o sono e demonstra pouco interesse por experiências fora do ambiente digital. Quando os adultos tentam interromper o uso, podem surgir irritabilidade intensa, agressividade, intolerância e sensação de vazio.
O sinal mais preocupante aparece quando a tela deixa de ampliar a vida e passa a ser quase o único lugar onde a criança consegue permanecer

Como reforçamos no primeiro episódio e destacado por Vinícius. “A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta evitar telas antes dos dois anos, limitar a cerca de uma hora diária entre 2 e 5 anos, de uma a duas horas entre 6 e 10 anos e de duas a três horas na adolescência, considerando principalmente o uso recreativo. Também é recomendável encerrar o uso pelo menos uma hora antes de dormir e manter os aparelhos fora do quarto durante a noite” 

Isolamento depressivo vs. vício em jogos

Saúde mental vs Jogos Online, o que sabemos - (Freepik)
Saúde mental vs Jogos Online, tem relação?

É fundamental diferenciar as origens do isolamento social para que a abordagem seja correta:

CaracterísticaDepressão Infantil/JuvenilVício em Jogos / Transtorno Digital
Causa PrimáriaRebaixamento do humor, anedonia e perda do desejo de conexão física.Priorização compulsiva da recompensa digital sobre as relações.
Padrão de PensamentoSentimento frequente de inutilidade, culpa e desesperança.Foco no ambiente virtual; menor índice de desesperança na fase inicial.
Dinâmica de TrocaO indivíduo afasta-se pela sensação de não pertencer ou ser um fardo.A tela substitui as frustrações da vida real por um ambiente editável.

Questionada sobre qual a diferença entre o tipo de isolamento para crianças em um quadro depressivo e pelo excesso em jogos, Gabriela Crenzel explica que são estimulos diferentes, mas que pode haver co-relação. “A depressão é a perda de capacidade do desejo e a vontade de conexão, enquanto nos jogos é um redirecionamento por outro tipo dessa busca por uma certa conexão, saindo do mundo real e indo para o virtual”, inicia a explicação sobre este ponto.

Enquanto na depressão há o isolamento se caracteriza pelo rebaixamento de humor, muita sensação de culpa, muita pouca vontade de fazer as coisas – chamada anedonia, baixa autoestima, desesperança e retraimento emocional. Já o transtorno de jogos, envolve abstinência no sentido de que o isolamento ocorre secundariamente, mas é devido a priorização dos jogos sobre interações sociais e outras atividades

Identificação de sinais comportamentais de alerta

As manifestações de dor psíquica nem sempre aparecem sob a forma de tristeza clara. Tanto nos quadros de depressão quanto nos de ansiedade, o comprometimento pode se traduzir em mudanças comportamentais e sintomas corporais.

Sinais de alerta de comportamento e físico de depressão em crianças

  • Irritabilidade
  • Perda de interesse pelo brincar
  • Alterações no sono e no apetite
  • Isolamento ou uso de roupas longas (mangas compridas)

Sinais alerta de comportamento e físico de ansiedade em crianças

  • Agitação e irritabilidade
  • Preocupação e medos excessivos
  • Insônia ou despertares noturnos
  • Síntomas somáticos (dores de cabeça, tontura, dores de barriga)

A irritabilidade frequentemente surge em substituição à tristeza clínica. Alterações no padrão do sono, perda do autocuidado ou queda injustificada no rendimento escolar indicam a necessidade de observação cuidadosa por parte dos responsáveis. Além disso, é necessário diferenciar o isolamento provocado pela depressão do vício em jogos virtuais: enquanto a depressão envolve um sentimento frequente de inutilidade e perda do desejo de conexão, o transtorno digital é movido pela busca compulsiva por recompensas virtuais.

Vinicius chama atenção para observar quais emoções acompanham o sentimento de irritabilidade. “Quando há uma mudança importante em relação ao seu jeito habitual de ser ou quando as crises se tornam muito intensas, frequentes, prolongadas e passam a prejudicar a escola, as amizades e a convivência familiar.

O especialista em saúde mental reforça ainda para que a família observe determinados tipos de comportamento, especialmente em frases como estas aqui. “‘ninguém gosta de mim’, ‘não consigo fazer nada’ ou ‘queria desaparecer’ precisam ser acolhidas com seriedade. É preciso reconhecer uma contradição do nosso tempo: pedimos que as famílias percebam mudanças cada vez mais sutis, enquanto oferecemos a elas cada vez menos tempo para conviver”

Um dos sintomas que Gabriela explica é nem sempre tristeza aparece em primeiro plano como quadro depressivo. “A adolescência é um período de grandes mudanças, porém, se houver o retraimento social severo ou, ao contrário, busca por grupos com comportamentos de risco, irritabilidade  persistente, a irritabilidade nas crianças e adolescentes muitas vezes é o principal sintoma de problemas emocionais, como depressão.

Além disso, a mudança no uso de roupas com mangas compridas em momentos de calor são pontos de atenção.  “Isso pode ser um sinal de que estão escondendo cortes ou outro tipo de machucado autoprovocado.  Mudanças sempre acontecerão, porque a adolescência é um período de mudanças, mas mudanças, por exemplo, no padrão de sono, mudanças na forma de se relacionar com o seu próprio autocuidado, um abandono de higiene pessoal, por exemplo, queda do rendimento escolar sem outras razões mensuráveis e, principalmente, discursos de ser um peso, de não fazer nada direito, de não se sentir com possibilidades de futuro, de achar que está sempre sobrando, que não pertence. Basicamente, seriam essas algumas das possibilidades de uma percepção, de uma forma indireta, de que algo difícil ou difícil demais está sendo experimentado pelo adolescente”. 

Estigmas familiares e despreparo de escolas no cuidado de saúde mental

Escolas públicas tem treinado professores e auxiliares para orientação em relação à saúde mental? (Reprodução)
Escolas públicas tem treinado professores e auxiliares para orientação em relação à saúde mental? (Reprodução)

Durante a entrevista, Gabriela Crenzel trouxe um ponto muito pertinente. Ela levanta que ao mesmo tempo que os pais foram enfrentando estigmas, preconceitos e aderiram o tratamento de saúde mentao aos seus filhos, há outras barreiras que travam o acesso de muitas crianças e adolescentes.

Dificuldades estruturais mesmo, por exemplo, poucos espaços para procurar ajuda, pouco conhecimento de onde se procurar. No serviço público a lista de espera é longuíssima e com uma disponibilidade limitadíssima, prncipalmente para crianças e adolescentes. Muitas pessoas não tem plano de saúde e os que tem não possui uma cobertura para saúde mental, falta de transporte, as vezes a localização é inconviniente. Muitos pais tem dificuldades porque pensam em confidencialidade, preocupações de estigmatizar os seus filhos, salienta.

Outro ponto que ela cobra é um maior preparo por parte das escolas, no sentido de preparar professores e equipe para atenderem a demanda. De acorco com a especialista em Saúde Mental pelo SBP, muitos professores e equipe não tem treinamento e não tem recursos para atender demanda de saúde mental. “Os estudantes vem em busca desse apoio junto com essas equipes. Então é fundamental garantir a saúde mental da equipe escolar, e segundo, apoio para que as escolas possam ensinar e capacitar seus professores e suas equipes para atender essa demanda crescente, e isso requer ações e apoio governamental”

As escolas desempenham papel central na identificação dos sintomas, mas precisam de investimentos públicos em treinamento e recursos estruturados para responder à demanda. A prevenção do adoecimento e a preservação da saúde mental passam pela construção de ambientes comunitários e familiares seguros, estabelecendo limites ao tempo de tela, garantindo momentos diários de escuta sem julgamentos e incentivando atividades físicas e culturais fora do ambiente virtual.

Crianças Offline

O “Crianças Offline” é uma série de reportagens do ABCdoABC, onde junto com a sociedade: professores, pais e responsáveis, psicólogos, psquiatras infantis, pediatras, enfim, trazemos um tema que impacta a vida de crianças e adolescentes em nosso país. Para o próximo episódio iremos discutir acessibilidade, crianças PCDs e inclusão social. Fiquem ligados!

  • Publicado: 05/08/2026 16:33
  • Alterado: 05/08/2026 16:33
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC