Como a Globo tem driblado o politicamente incorreto em novelas ‘problemáticas’

Emissora cenas ou cria avisos de gatilho para o início de cada capítulo ao reexibir as obras na TV ou no Globoplay.

  • Data: 21/10/2023 11:10
  • Alterado: 21/10/2023 11:10
  • Autor: Cristina Padiglione
  • Fonte: FOLHAPRESS
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Crédito:Divulgação/Globoplay

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São novos tempos, e a Globo sabe disso. Ao revisitar o seu acervo para exibições na faixa “Vale a Pena Ver de Novo” da TV aberta, no canal Viva ou na plataforma de streaming Globoplay, a emissora tem investido em alertas de gatilho ou até em cortes secos de cenas que hoje são vistas como ofensivas, na tentativa de driblar o cancelamento.

Naquele que é o maior arquivo do audiovisual brasileiro, não faltam diálogos que hoje são considerados homofóbicos, machistas, racistas, etaristas e outros “istas” desagradáveis.

A emissora diz que tenta reexibir os conteúdos “em sua integralidade sempre que possível”. No Globoplay e no Viva, tem sido comum o uso de uma cartela de avisos no início de cada capítulo. Já no canal aberto a direção tenta cortar cenas incômodas quando elas não são essenciais para a compreensão da trama.

Os cortes funcionam para os casos em que a abordagem de algum tema sensível hoje tida como incorreta não toma conta da obra toda. Os outros casos podem levar a emissora a não tirar mais a novela da gaveta.

Pode ainda impor desafios à produção de remakes, como o que está por acontecer com “Vale Tudo”, escrita por Gilberto Braga há 35 anos. É difícil imaginar uma frase da vilã Odete Roitman que hoje não seria alvo de cancelamento.

“Como no Globoplay os títulos estão disponibilizados sob demanda, é o assinante que busca o que deseja assistir e, assim, fica reduzida a possibilidade de contato com conteúdos que poderiam ferir sua sensibilidade”, diz uma nota da emissora. “Ainda assim, cartelas de contexto de época são utilizadas para lembrar que as obras de acervo reproduzem costumes e comportamentos do tempo em que foram produzidas.”

As cartelas foram a opção adotada para o lançamento, no final de julho, da novela “A Lua me Disse”, de Miguel Falabella, no Globoplay. “Esta obra pode conter representações negativas e estereótipos da época em que foi realizada. A obra é exibida na íntegra porque acreditamos que essas cenas podem contribuir para o debate sobre um futuro mais diverso e inclusivo”, diz o aviso.

Ainda quando foi ao ar pela primeira vez, em 2005, o folhetim despertou controvérsias sobre racismo, homofobia e humilhação de indígenas. Mas as tramas, vistas por uns como preconceituosas, também foram tratadas por outros como uma crítica a estereótipos.

A cartela é uma extensão de um recado mais sucinto que surgiu há três anos no Viva, quando o canal passou a reprisar “Da Cor do Pecado”, de João Emanuel Carneiro, que foi ao ar em 2004. “Esta obra reproduz comportamentos e costumes da época em que foi realizada.

A opção por contextualizar erros do passado, em vez de fingir que eles nunca existiram, tem predominado na indústria do audiovisual. É uma situação diferente do que ocorre nos livros, principalmente nos que são voltados ao público infantil, como os de Roald Dahl, de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, que têm sido submetidos a cortes com aprovação de seus herdeiros.

O documentário sobre Xuxa no Globoplay oferece vários pontos para reflexão sobre os cacoetes impróprios dos anos 1980, como as indicações da apresentadora e de seu coreógrafo para um concurso em busca de novas “paquitas”, como eram chamadas suas assistentes de palco. “Tem de ser bonita, magra e, de preferência, loira”, diz uma mensagem resgatada da época, que hoje Xuxa reconhece como um erro.

Situação parecida aconteceu com o documentário “A Superfantástica História do Balão”, este do Star+, quando bailarinas desfilavam coreografias libidinosas em um figurino de maiôs cavados bem na altura dos olhos das crianças do Balão Mágico.

Até parece uma cena de “Bingo”, o filme de Daniel Rezende sobre um dos intérpretes do palhaço Bozo que cheirava cocaína antes de entrar em cena e, impaciente com o público infantil, mal se fazia notar no trato inadequado com a plateia. Exagero de ficção? Antes fosse.

Diferentemente de um livro, onde uma nota de rodapé basta para chamar a atenção do leitor no mesmo instante em que ele lê algo ultrapassado para os conceitos sociais contemporâneos, uma produção audiovisual não pode ser bruscamente interrompida em uma cena qualquer.

“Como é que vai parar a cena e colocar um cartaz no meio?”, diz Alcides Nogueira, autor de várias novelas da Globo ao longo de 40 anos e distante da emissora desde o ano passado. O autor, assim como Maria Adelaide Amaral, que também assina várias produções do acervo da Globo e deixou a emissora no ano passado, diz ser favorável à contextualização por meio de cartelas e avisos na tela.

O autor, assim como Maria Adelaide Amaral, que também assina várias produções do acervo da Globo e deixou a emissora no ano passado, diz ser favorável à contextualização por meio de cartelas e avisos na tela.

“A primeira vez que vi algo sobre revisionismo, fiquei chocada, porque isso me lembrou a ditadura militar, em que palavras ou frases das peças eram cortadas ou a obra simplesmente censurada como um todo, como aconteceu comigo”, diz.

Ainda penso que em muitos casos há exagero, mas a gente não está no lugar do outro, e me refiro especificamente aos negros, às etnias que foram tão mal representadas, com tanto preconceito e superioridade racial por parte dos brancos.”

Amaral cita Monteiro Lobato, outro alvo de extensas discussões sobre o tema, observando que o autor reproduzia aquilo que era usual para a época. “Fiquei chocada quando soube que iam censurar Lobato. [Sou a favor de] nota de rodapé. É muito mais educativo. Se você rasgar, perde toda a perspectiva da época.”

Mas há cenas que a emissora considera tão inadequadas que prefere cortar. Em reprises no Viva de “Êta Mundo Bom”, de 2018, e de uma sequência de “Malhação”, de 1998, a Globo decidiu suprimir cenas de “blackface” –como é chamado o ato de um ator branco pintar a pele para parecer negro e fazer disso uma piada.

Preservar a memória da nossa teledramaturgia é um compromisso, mas isso tem de se equilibrar com os valores da sociedade contemporânea. Muitos espectadores poderiam se sentir ofendidos com a reprodução daquelas cenas de ‘blackface’. Respeitamos quem pensa diferente, mas prevaleceu o respeito à sensibilidade”, disse Erick Bretas, diretor de produtos digitais e canais fechados da Globo, nas redes sociais.

Amaral e Nogueira dizem acreditar que não há nada a ser “corrigido” em suas obras. O dramaturgo lembra a abordagem da escravidão em “Força de um Desejo”, de 1999, que ele escreveu com Gilberto Braga. “Lembro que eu e Gilberto estávamos muito atentos já naquele tempo. A trama mostrava não só a questão da abolição, mas dos abolicionistas. Pode ser que tenha passado alguma coisa, mas acho que não”, diz.

Há dois anos, a Globo se viu obrigada a operar mudanças também na trama de época “Nos Tempos do Imperador”, de Thereza Falcão e Alessandro Marson, por uma cena que expressava racismo reverso e passou batida pelos autores e pela direção, que foi apedrejada no Twitter.

A partir do episódio, os autores fizeram uma revisão do texto, com apoio de pesquisadores, e reescreveram cenas envolvendo a princesa Isabel e a abolição. Houve até sequências jogadas no lixo e regravadas.

Segundo Nogueira, é preciso redobrar a atenção a respeito de produções de época, porque recontar certos episódios exige que a contextualização esteja dentro do próprio roteiro, mas sem que seja distorcida a realidade do período retratado. “Se houver um cartaz, tem que alertar para esses dois momentos”, diz o autor. “Não concordo é com o apagamento. Não pode apagar a criação nem o que foi feito.

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  • Data: 21/10/2023 11:10
  • Alterado: 21/10/2023 11:10
  • Autor: Cristina Padiglione
  • Fonte: FOLHAPRESS









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