Entre conquistas e estereótipos: um olhar sobre Colegas e o Herdeiro
Colegas e o Herdeiro amplia o protagonismo de pessoas com deficiência no cinema e provoca debate sobre estereótipos, autonomia e capacitismo na sociedade
- Publicado: 28/08/2026 14:21
- Alterado: 28/08/2026 14:21
- Autor: Leide Maia
Assistir a Colegas e o Herdeiro, de Marcelo Galvão, provoca sentimentos que não são simples de organizar. Há algo importante e que merece ser celebrado: uma produção brasileira chegar aos cinemas com um elenco formado majoritariamente por pessoas com síndrome de Down e um ator com autismo ainda é algo raro. Mais do que estarem presentes, esses atores e atrizes ocupam o centro da narrativa, vivem aventuras, relações afetivas, conflitos e sonhos.
Para quem acompanha de perto o movimento das pessoas com deficiência e, especialmente, a autodefensoria, essa presença ganha outra dimensão. Entre os participantes do filme estão autodefensores e autodefensoras com trajetórias importantes de participação social. Há, portanto, uma conquista real: pessoas com deficiência estão diante das câmeras, trabalhando como atores e atrizes e ocupando um espaço historicamente pouco acessível a elas.
Reconhecer essa conquista também nos permite olhar para a representação que está sendo construída. Talvez seja justamente porque queremos ver cada vez mais pessoas com deficiência no cinema que precisamos conversar sobre as histórias que estamos contando sobre elas.
Presença, protagonismo e representação
Presença, protagonismo e representação não são exatamente a mesma coisa. Uma produção pode ampliar significativamente a participação de pessoas com deficiência, colocá-las como protagonistas e, ainda assim, reproduzir concepções historicamente construídas sobre a deficiência. Essa talvez seja uma das principais contradições de Colegas e o Herdeiro.
Ao longo do filme, adultos com síndrome de Down ocupam o centro da história, mas o universo construído ao redor deles é marcado por uma infantilização recorrente. Leveza, fantasia e humor são possibilidades legítimas. Pessoas com síndrome de Down podem protagonizar comédias, romances, aventuras, dramas ou qualquer outro gênero.
A questão aparece quando personagens adultos são reiteradamente apresentados a partir da ingenuidade, da impulsividade e de respostas infantilizadas diante de situações essencialmente adultas. O conjunto acaba se aproximando de um estereótipo antigo: o da pessoa com deficiência intelectual como uma eterna criança.
Algo semelhante acontece com Magrelo, personagem autista importante na trama. O problema não está em apresentar características relacionadas ao TEA, mas na forma como elas são utilizadas para construir o personagem de maneira muito marcada por estereótipos. Pessoas com síndrome de Down não são todas iguais. Pessoas autistas também não. A deficiência compõe suas experiências, mas não esgota aquilo que são.
Adultidade, sexualidade e responsabilidade
A infantilização das pessoas com deficiência intelectual não está apenas no cinema. Ela atravessa a vida real quando adultos são afastados das decisões sobre onde morar, como utilizar seu dinheiro, com quem se relacionar ou quais caminhos desejam construir. Também aparece na forma como sua sexualidade é tratada.
Em Colegas e o Herdeiro, situações envolvendo nudez, invasão de privacidade e interações sem consentimento são utilizadas repetidamente como recurso cômico. Em uma delas, um personagem fotografa outro durante o banho e compartilha as imagens; posteriormente, aparece nu diante dos hóspedes como parte de uma tentativa de reparação do que fez.
O problema não está em mostrar pessoas com deficiência vivendo sua sexualidade ou cometendo erros. Reconhecer sua adultidade significa também permitir personagens que desejam, namoram, fazem sexo, erram, magoam outras pessoas e tomam decisões boas ou ruins. A questão está no tratamento dessas situações.
Consentimento, privacidade, respeito ao corpo do outro e compreensão de limites são aprendizagens possíveis e necessárias. Quando situações graves são apresentadas apenas como traquinagens decorrentes de uma suposta ingenuidade, corre-se o risco de reforçar a ideia de que pessoas com deficiência intelectual não conseguem compreender limites e responsabilidades.
Entre negar a sexualidade e tratá-la pela ingenuidade ou pela hipersexualização existe um campo muito mais rico para representar adultos vivendo afetos, desejos, escolhas e responsabilidades.
A institucionalização também comunica

Outro aspecto importante é a instituição onde vivem os personagens. O filme apresenta adultos com síndrome de Down morando em uma instituição e saindo aos finais de semana para visitar suas famílias. Essa organização aparece praticamente como parte natural de suas vidas. Esse cenário não é neutro.
Há décadas, pessoas com deficiência, famílias e movimentos sociais constroem uma trajetória contrária à segregação e à institucionalização. A luta antimanicomial, o movimento pela vida independente, a educação inclusiva e a defesa da convivência comunitária modificaram profundamente nossa compreensão sobre o lugar social das pessoas com deficiência.
Na educação, avançamos na afirmação de que estudantes com deficiência pertencem à escola comum, com os apoios e recursos necessários. Na vida adulta, esse mesmo princípio se relaciona ao direito de trabalhar, escolher, participar, construir relações, viver em comunidade e decidir sobre a própria vida com os apoios de que cada pessoa necessita.
Uma obra de ficção pode retratar uma instituição. A questão está em como ela é apresentada. Quando a segregação aparece como um destino natural para adultos com deficiência, sem qualquer tensionamento, uma concepção historicamente questionada pelos movimentos sociais acaba sendo atualizada no presente.
Quando o capacitismo entra na história
O filme apresenta também situações explicitamente capacitistas. Um personagem que sonha em ser piloto é desqualificado e explorado pelo chefe. Outro é chamado de “retardado”. Há apelidos e formas depreciativas de se referir a diferentes personagens. Mostrar capacitismo também não é um problema. O cinema pode, inclusive, ajudar a reconhecê-lo. A questão é o que a narrativa faz com o capacitismo que ela apresenta.
No caso do personagem que deseja ser piloto, havia um conflito muito potente: um homem com síndrome de Down enfrentando exploração no trabalho e descrédito em relação ao seu projeto de vida. Sua resposta, porém, é colocar fogo no carro do chefe. O conflito praticamente desaparece e, ao final, ele reaparece pilotando um avião.
Entre a discriminação e a realização do sonho havia uma história adulta possível: enfrentar uma injustiça, buscar apoio, fazer escolhas, lidar com consequências e construir caminhos para alcançar aquilo que deseja ou não. É nesses percursos que um personagem pode se constituir como sujeito de sua própria história.
Sim, estamos falando sobre deficiência

O diretor Marcelo Galvão já afirmou que Colegas e o Herdeiro não seria um filme “sobre deficiência”. É possível compreender a intenção: pessoas com deficiência não precisam aparecer no cinema apenas em histórias sobre diagnóstico, preconceito ou superação. Elas podem simplesmente viver uma aventura. E queremos que possam.
Mas uma obra com um elenco majoritariamente composto por pessoas com síndrome de Down e uma pessoa com TEA, atravessada por institucionalização, trabalho, autonomia, sexualidade, capacidade, relações afetivas e discriminação, produz, sim, um discurso sobre a deficiência. E não há problema algum nisso. A deficiência faz parte da diversidade humana. Devemos reconhecê-la sem reduzir uma pessoa a uma condição específica que ela tenha.
Talvez seja justamente esse um dos avanços construídos nas últimas décadas. Cresceram a autodefensoria, a educação inclusiva e os debates sobre vida independente, capacidade legal, sexualidade, trabalho, autonomia e participação social. Pessoas com deficiência vêm ocupando espaços e dizendo, cada vez mais, o que desejam para suas próprias vidas.
Diante disso, cabe perguntar: as histórias que contamos sobre pessoas com deficiência estão acompanhando as transformações que elas próprias vêm produzindo na sociedade?
Queremos mais
E essa pergunta não diminui a importância de Colegas e o Herdeiro. Ela nasce justamente do avanço que significa termos tantos atores e atrizes com deficiência ocupando uma produção cinematográfica.
Queremos mais pessoas com deficiência no cinema. Mais atores e atrizes, mais roteiristas, mais consultores e mais participação nas decisões sobre as histórias que serão contadas.
Queremos personagens engraçados sem que o humor dependa de sua infantilização. Personagens que possam viver sua sexualidade sem serem reduzidos à ingenuidade ou à hipersexualização. Que possam errar, aprender, escolher, enfrentar o capacitismo, precisar de apoio e continuar sendo reconhecidos como sujeitos de suas próprias vidas.
Queremos personagens complexos porque todas as pessoas são complexas, com e sem deficiência.
Talvez Colegas e o Herdeiro seja também uma oportunidade para essa conversa: celebrar a presença e o protagonismo conquistados e, justamente por isso, desejar que as representações também avancem.
Depois de tantos anos lutando para que pessoas com deficiência ocupem a escola, o trabalho, a comunidade, os espaços de decisão e a vida adulta, é importante que possam ocupar também o nosso imaginário em toda a sua complexidade.
Queremos mais cinema com pessoas com deficiência. E queremos cada vez mais possibilidades de histórias para elas, com elas e feitas por elas.
Leide Maia

Leide Maia atua na área de educação e comunicação, com foco em linguagem simples e acessibilidade do conhecimento. É idealizadora da Plataforma MAIA e desenvolve projetos voltados à inclusão, aprendizagem e melhoria da compreensão leitora no Brasil.