Chatbots viram companhia e afeto para jovens, mostram dados
Chatbots passam a ser usados para apoio emocional e companhia por 20% dos jovens adultos enquanto especialistas alertam para os impactos nas relações reais
- Publicado: 30/10/2026 09:05
- Alterado: 30/10/2026 09:05
- Autor: Daniela Ferreira
A consolidação das ferramentas de inteligência artificial generativa começa a redefinir as fronteiras da afetividade humana. O avanço de chatbots conversacionais capacitados para simular empatia, escuta ativa e memória contextual tem levado parte dos usuários a recorrer aos algoritmos não apenas para tarefas profissionais, mas como suporte emocional, companhia cotidiana e até parceiros afetivos.
Esse fenômeno comportamental, classificado por pesquisadores como “digissexualidade”, descreve o vínculo íntimo, romântico ou atrativo desenvolvido entre seres humanos e sistemas computacionais automatizados.
Levantamento conduzido pelo Pew Research Center revelou que 20% dos jovens adultos norte-americanos com menos de 30 anos já utilizaram ferramentas de inteligência artificial para obter conselhos ou apoio em momentos de vulnerabilidade psicológica.
No mesmo recorte geracional, cerca de 7% dos entrevistados declararam empregar chatbots especificamente com o propósito de companhia contínua, suprindo a carência de interação social presencial.

Relatos públicos e dados globais sobre apego algorítmico
A tendência ganhou visibilidade pública recente com o relato da influenciadora digital Suellen Carey, que divulgou ter mantido um relacionamento afetivo de três meses com o chatbots do ChatGPT. A criadora destacou a personalização contínua do sistema, que retinha dados biográficos e demonstrava atenção constante sem julgamentos identitários.
O apego em larga escala com chatbots foi documentado em pesquisa publicada na revista acadêmica Technology in Society, envolvendo mais de 7 mil participantes na Alemanha, China, Estados Unidos e África do Sul.
O estudo apontou que mais de 35% dos respondentes apresentavam algum grau de vínculo emocional com chatbots. Além disso, aproximadamente 21% do público indicou que os robôs virtuais se tornaram a primeira escolha para o desabafo de segredos e angústias particulares.

Fronteiras éticas, saúde mental e a necessidade do fator humano
Especialistas em saúde mental e dinâmica de relacionamentos alertam para os riscos da substituição de conexões interpessoais reais por estímulos sintéticos programados para agradar.
O psiquiatra João Borzino adverte que a digissexualidade pode atuar como um mecanismo de fuga perante a complexidade das relações cotidianas, funcionando como sintoma de uma sociedade que terceiriza a vulnerabilidade para evitar o desconforto, as frustrações e as dores inerentes à convivência com outros indivíduos.
Na mesma linha, Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo da plataforma MeuPatrocínio, ressalta que o debate ultrapassou a utilidade técnica das ferramentas.
Para o analista, o limite reside na terceirização da personalidade e na busca por conveniência afetiva sem contrapartida mútua, uma vez que relacionamentos duradouros continuam a depender de clareza, transparência, alinhamento recíproco de expectativas e autoconhecimento genuíno.