Cervejarias apostam em produtos leves para reagir à queda nas vendas
Com consumidores mais atentos à saúde e ao bem-estar, setor investe em cervejas sem glúten, com menos calorias e teor alcoólico reduzido para impulsionar o consumo durante a Copa do Mundo
- Publicado: 07/06/2026 16:30
- Alterado: 07/06/2026 16:30
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: FolhaPress
A indústria cervejeira enfrenta um cenário de transformação no comportamento dos consumidores. A preocupação crescente com saúde, estética e qualidade de vida tem levado parte da população a reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, impactando diretamente as vendas do setor.
Dados da consultoria Euromonitor mostram que as vendas globais de cerveja em varejos, bares e restaurantes registraram queda de 3,5% em 2025 na comparação com 2019, período anterior à pandemia. No Brasil, após um crescimento durante os anos de isolamento social e um pico registrado em 2022, o mercado passou a desacelerar. Somente em 2025, as vendas recuaram 5% em relação ao ano anterior.
O movimento também aparece nos números da produção nacional. Segundo o Anuário da Cerveja 2026, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o volume produzido caiu 9% em 2025 na comparação com 2024, totalizando 15,7 bilhões de litros.
De acordo com especialistas, a redução do consumo está associada tanto às mudanças de hábitos quanto a fatores econômicos, como a perda do poder de compra da população e o aumento dos custos de produção.
Copa do Mundo surge como oportunidade para o setor
Em meio ao cenário de desaceleração, a Copa do Mundo é vista pelas fabricantes como uma oportunidade para estimular as vendas. Tradicionalmente, o torneio movimenta bares, restaurantes e encontros entre torcedores, criando um ambiente favorável para o consumo de cerveja.
O período é frequentemente tratado pelo setor como um “segundo verão”, devido ao aumento da demanda registrado durante a competição.
Para aproveitar o momento, as empresas ampliaram o lançamento de produtos alinhados às novas preferências dos consumidores. O foco está em cervejas sem glúten, com menos calorias e teor alcoólico reduzido ou inexistente.
Novas versões buscam atender público preocupado com bem-estar
As grandes fabricantes têm reformulado seus portfólios para acompanhar a mudança de comportamento dos consumidores.
Segundo Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken no Brasil, o mercado vive uma nova fase de transformação. Após o crescimento das cervejas puro malte e, posteriormente, das versões sem álcool, a tendência agora é o avanço de bebidas consideradas mais equilibradas, com menor teor alcoólico, menos calorias e sem glúten.
A empresa lançou recentemente no país a Heineken Ultimate, versão com 3,5% de teor alcoólico, 97 calorias e sem glúten. O produto busca atender consumidores que desejam reduzir os efeitos associados ao consumo de álcool sem abandonar a categoria.
Corridas e eventos unem esporte e cerveja sem álcool
As mudanças também já podem ser observadas nos estabelecimentos que trabalham diretamente com o público.
Na zona norte de São Paulo, o Boteco Sombrinha criou a “Corrida de Boteco”, evento em que participantes percorrem cinco quilômetros e recebem uma cerveja sem álcool ao final da prova. A iniciativa procura conectar atividades físicas e momentos de socialização, algo que há poucos anos seria considerado improvável para o setor.
O empresário Rafael Willow afirma que percebe uma mudança significativa entre os consumidores mais jovens, especialmente aqueles que praticam esportes regularmente. Segundo ele, cervejas sem álcool ou sem glúten têm conquistado espaço entre pessoas que buscam evitar desconfortos associados ao consumo tradicional da bebida.
A expectativa do estabelecimento é ampliar as vendas durante a Copa do Mundo, período em que o bar investirá em decoração temática e estrutura especial para transmissão dos jogos.
Fabricantes ampliam oferta de cervejas sem glúten
A estratégia de adaptação ao novo perfil do consumidor é compartilhada pelas principais cervejarias do país.
A Ambev pretende ampliar a divulgação de marcas voltadas a consumidores que buscam produtos com menos calorias e carboidratos. Entre os rótulos destacados estão Flying Fish, Michelob e Stella Pure Gold, todas posicionadas dentro da tendência de bebidas consideradas mais leves.
Já o Grupo Petrópolis aposta na expansão de linhas como Petra Ultra e Black Princess Zero. A empresa também reforça a divulgação da Itaipava durante a Copa do Mundo, utilizando o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho em campanhas publicitárias.
Apesar do crescimento dessas categorias, as cervejas sem álcool ainda representam uma parcela pequena do mercado nacional. Estimativas apontam participação entre 2% e 5% das vendas totais, dependendo da metodologia utilizada.
Inovação pode incluir ingredientes funcionais
Especialistas acreditam que a próxima etapa da evolução do setor pode envolver bebidas com propostas funcionais, indo além da simples redução do teor alcoólico.
Segundo análises da Euromonitor, fabricantes de diferentes países já experimentam formulações com ingredientes como cafeína, cânhamo e canabinoides, sempre respeitando as regras de cada mercado. A proposta é oferecer experiências relacionadas ao relaxamento, à energia ou à socialização, sem necessariamente depender do álcool como principal elemento da bebida.
Outro fator observado pela indústria é o impacto de novos hábitos de consumo. O avanço das chamadas canetas emagrecedoras e o crescimento das apostas esportivas online são apontados por especialistas como fenômenos que podem influenciar a destinação da renda dos consumidores e, consequentemente, afetar a venda de cervejas.
Setor busca adaptação para manter relevância
Diante das mudanças culturais e econômicas, fabricantes e estabelecimentos apostam na diversificação do portfólio para manter a relevância junto aos consumidores.
A estratégia passa por oferecer opções compatíveis com estilos de vida mais voltados ao equilíbrio, à prática de atividades físicas e à preocupação com a saúde. Para a indústria, compreender essas transformações será fundamental para enfrentar a queda nas vendas e conquistar novos públicos nos próximos anos.