Carros maiores e os riscos relacionados aos pedestres

Crescimento dos SUVs e picapes reacende o debate sobre segurança viária e proteção dos pedestres nas cidades brasileiras

Crédito: (Divulgação/Opel)

Na última semana, uma extensa investigação publicada pelo The New York Times trouxe uma reflexão que merece chegar também às ruas brasileiras. O estudo divulgado pelo jornal analisou milhares de atropelamentos ocorridos nos Estados Unidos e concluiu que o crescimento do tamanho dos veículos, especialmente SUVs e picapes, aumentou significativamente o risco de morte de pedestres.

À primeira vista, pode parecer um problema exclusivamente americano. Afinal, lá predominam veículos muito maiores do que os encontrados no Brasil. Mas a tendência de mercado que impulsiona esse fenômeno também está presente por aqui e merece atenção antes que seus efeitos se consolidem.

Evolução da segurança veicular

Durante décadas, a evolução da segurança veicular concentrou-se quase exclusivamente em proteger quem está dentro do automóvel. Airbags, zonas de deformação programada, cintos de segurança, controle eletrônico de estabilidade e sistemas de frenagem transformaram os veículos atuais em verdadeiras cápsulas de proteção para seus ocupantes.

Entretanto, existe um outro lado dessa evolução. O desenho frontal dos automóveis também mudou. Capôs se tornaram mais altos, dianteiras mais verticais, para-choques elevados e áreas cegas maiores alteram completamente a dinâmica de um atropelamento.

Quando um veículo de frente baixa atinge pedestres, existe maior probabilidade de que as pessoas sejam projetadaa sobre o capô, dissipando parte da energia do impacto. Já em veículos com frente elevada, como muitos SUVs e picapes, o primeiro impacto em ocorre diretamente na região do tórax para os adultos ou na cabeça em crianças, aumentando consideravelmente a gravidade das lesões.

Capô alto, risco maior de lesões graves

Pedestres - Trânsito
(Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Segundo a informação do The New York Times, cada aumento na altura do capô está associado ao crescimento do risco de morte de pedestres, mesmo quando são considerados fatores como idade do motorista, idade da vítima, consumo de álcool e outras variáveis estatísticas.

Os pesquisadores estimam que milhares de vidas poderiam ter sido preservadas caso os veículos atuais mantivessem características semelhantes às dos modelos do início dos anos 2000.

Outro aspecto preocupante é a visibilidade. Quanto maior o veículo, maior tende a ser a área que permanece invisível imediatamente à frente do motorista. Crianças pequenas, cadeirantes, ciclistas e até adultos podem permanecer escondidos nessa região durante manobras de baixa velocidade. Começa a ter, dentro das proporções, pontos invisíveis como há em ônibus e caminhões.

Desafios à frente

No Brasil, embora nossa frota ainda seja composta majoritariamente por automóveis compactos, observa-se um crescimento acelerado da participação dos SUVs. Eles passaram de um nicho de mercado para uma das categorias mais vendidas do país. A preferência do consumidor é compreensível: posição elevada de dirigir, sensação de segurança, maior espaço interno e versatilidade.

O desafio é que essa percepção de segurança para quem está dentro do veículo não significa necessariamente mais segurança para quem está fora dele. O centro de massa destes veículos naturalmente é mais alto que um veículo usual, o que gera mais instabilidade em mudanças repentinas em momentos emergenciais no trânsito.

Debates mundo a fora

Esse debate já começa a influenciar políticas públicas em diversos países. Nos Estados Unidos, órgãos reguladores iniciaram discussões para incorporar critérios de proteção ao pedestre nas avaliações de segurança dos veículos. Na Europa, fabricantes já são incentivados há anos a desenvolver frentes mais deformáveis, sistemas de frenagem automática com detecção de pedestres e tecnologias capazes de reduzir os impactos em atropelamentos.

No Grande ABC, região marcada por intensa circulação de pedestres, motociclistas, ciclistas e transporte coletivo, essa discussão ganha ainda mais relevância. Nossas cidades caminham para modelos de mobilidade mais sustentáveis, incentivando deslocamentos a pé e por bicicleta. Entretanto, essa transformação precisa ser acompanhada também por uma reflexão sobre o tipo de veículo que ocupa nossas vias.

Também não podemos demonizar este segmento

Picapes - SUVs - Carros - Pedestres - Veículos
(Divulgação)

Não se trata de demonizar SUVs ou picapes. Eles possuem aplicações legítimas, oferecem conforto e atendem às necessidades de muitas pessoas. O verdadeiro desafio é equilibrar a evolução da indústria da mobilidade com a proteção dos pedestres, que são os mais vulneráveis do sistema viário, seguido pelos motociclistas e ciclistas.

Quando falamos em segurança no trânsito, normalmente pensamos em excesso de velocidade, consumo de bebida alcoólica ao volante ou a distração ao dirigir com o uso do aparelho celular. Todos esses fatores continuam fundamentais e devem ser combatidos diariamente. Mas talvez esteja na hora de acrescentarmos uma nova pergunta ao debate: além de dirigir com segurança, quão seguro é o veículo que escolhemos para quem está do lado de fora?

O Grande ABC tem um dos maiores índices de motorização do Estado de São Paulo e concentra intensa circulação de pedestres nas áreas centrais, corredores de ônibus e polos industriais. À medida que a frota brasileira incorpora veículos cada vez maiores, discutir o desenho urbano e a segurança veicular deixa de ser um tema restrito à engenharia automotiva e passa a ser uma questão de saúde pública.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 26/06/2026 13:00
  • Alterado: 26/06/2026 13:00
  • Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
  • Fonte: ABCdoABC

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