Campinas supera 41 mil atendimentos contra álcool e drogas
Paciente relata recuperação após décadas de vício e alerta sobre a importância de buscar suporte médico especializado nos centros de saúde.
- Publicado: 26/06/2026 14:53
- Alterado: 26/06/2026 14:53
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: SES-SP
A rede de saúde de Campinas registrou 41.265 acolhimentos a pacientes dependentes de álcool e entorpecentes entre janeiro e maio de 2026. Os dados revelam a dimensão do desafio enfrentado diariamente pelos quatro Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) do município. A busca por recuperação envolve tanto o tratamento químico das substâncias quanto a reconstrução da identidade dos usuários.
O choque de realidade e a decisão de viver
Um homem de 52 anos, que iniciou o consumo de bebidas alcoólicas aos 12 anos, vivenciou mais de três décadas refém do vício. Ele relata o momento exato em que a exaustão física e mental forçou uma mudança de rota em sua trajetória de dependência.
“Eu percebi que não queria morrer. Na época tinha dias que eu falava, cara, não quero mais estar aqui. E descobri que queria viver”, relatou o paciente anônimo.
O processo de libertação exigiu internação e participação ativa em grupos de apoio mútuo. A perda de vínculos familiares, bens materiais e oportunidades de estudo marcou o período de dependência severa. A ausência de sensibilidade à dor ou ao ambiente ao redor funcionou como o estopim para buscar o resgate clínico.
“Você é tipo zumbi, cara, você não sente mais nada”, relembrou o morador sobre as madrugadas em claro.
Atendimentos da rede pública em Campinas
A Secretaria de Saúde contabilizou um volume expressivo de demandas, mantendo uma média estável em relação ao ano anterior. Nos primeiros cinco meses de 2025, as unidades somaram 41.726 consultas e acompanhamentos. A ligeira flutuação nos números indica uma procura constante pela superação da doença.
A abstinência exige vigilância ininterrupta e reconstrução da própria rotina diária. O paciente entrevistado destaca a gratidão pelas pequenas conquistas, como a capacidade de acordar sem os efeitos debilitantes de ressacas profundas ou da fissura química.
“Sem o álcool foi muito difícil no começo. Mas hoje eu me amo. Começo a aprender a viver de maneira diferente”, disse.
Impacto neurológico e a química da dependência
As substâncias químicas alteram drasticamente o funcionamento orgânico e mental. A psiquiatra e professora da Unicamp, Karina Diniz, explica que os entorpecentes são classificados entre depressores, estimulantes e perturbadores do sistema nervoso central.
Essas drogas provocam a liberação maciça de dopamina em regiões primitivas do cérebro, responsáveis pelos instintos básicos. O uso contínuo desregula o sistema de recompensa, fazendo o organismo acreditar que a substância sintética é vital para a sobrevivência humana.
“Para o cérebro, a falta da droga funciona como a falta de água ou de comida”, afirmou Diniz.
O álcool, frequentemente banalizado pelo contexto social, atua como um severo depressor e costuma abrir portas para quadros graves em indivíduos vulneráveis. Danos cognitivos irreversíveis e acidentes cardiovasculares, como infartos, lideram as consequências clínicas prolongadas.
Como buscar orientação médica e tratamento
A rede de suporte público atua na linha de frente para mitigar os danos sociais e familiares provocados pelo abuso crônico em Campinas. O monitoramento do comportamento do usuário serve como o principal termômetro para a intervenção clínica adequada.
Especialistas recomendam atenção imediata quando a busca pela substância passa a dominar o cotidiano, prejudicando o trabalho e as relações afetivas. A intervenção precoce evita a evolução clínica para quadros neurológicos irreversíveis.
Moradores de Campinas podem procurar atendimento presencial diretamente nas unidades especializadas do município. O acolhimento envolve terapias integradas para ajudar o paciente a resgatar a própria autonomia frente ao diagnóstico de dependência.
“Se o uso começa a ganhar importância maior na vida, é o momento de procurar ajuda”, alertou a psiquiatra. A informação clínica e a identificação precoce dos sinais de alerta permanecem como as armas mais eficazes das políticas de saúde em Campinas.