Cadê meu alerta de fim do mundo?
Se até o apocalipse precisa de lista de transmissão, gostaria de registrar oficialmente minha reclamação
- Publicado: 23/06/2026 13:04
- Alterado: 23/06/2026 13:04
- Autor: Paola Zanei
- Fonte: ABCdoABC
A coisa está de um jeito que, quando eu escolho um tema para crônica, tenho de escrever na hora, antes que outra coisa mais surreal aconteça e soterre o tema anterior. Não dou conta não.
Por isso, hoje vou falar do fato mais impactante dos últimos dias: o aviso da Defesa Civil na madrugada de sábado. Como hoje é terça — e eu torço para que nada de estranho aconteça nas próximas horas — talvez ninguém lembre mais da notícia que dividiu espaço com a vitória da seleção brasileira. Inclusive, preciso deixar minha análise de especialista aqui: acho que a seleção gosta mesmo é de jogar apenas 45 minutos. Pode ser o segundo tempo ou o primeiro. Bom desempenho e sangue nos olhos por 90 minutos, tá difícil de ver.
Voltando ao tema, alerta de fim de mundo, mediante tantos memes sobre o tema, piadas feitas por tanta gente que recebeu o alerta, venho por meio desta reclamar que eu não recebi nada e estou bem magoada, como cronista de humor (pelo menos eu tento), por ter ficado fora da lista de transmissão do hacker. Por isso vou escrever sobre a experiência que eu não tive.
Não tive a experiência de acordar com susto depois de tomar algumas taças de vinho durante o jogo do Brasil e, com o coração acelerado, tatear a mesinha de cabeceira no escuro à procura do celular. E então esquecer que também deixo um copo com água na mesma mesinha e, assustada no escuro e pós-comemoração, esbarrar nele e falar um palavrão, que só meus gatos ouviriam, ao constatar que a água caiu toda no chão – molhando não só o chão como o pé esquerdo do chinelo.
Mas dane-se a água, qual é a mensagem? Eu pensaria e pegaria o celular e iria visualizar – depois que achasse meus óculos – ainda no escuro aquela mensagem ao mesmo tempo assustadora e incompreensível. Eu teria corrido para a janela, antes de acionar o Google para saber o que significa misantropia e antes que o meu cérebro entendesse que tinha algo de suspeito naquele alerta.
Ao perceber que não tinha nada no céu, eu iria, então ver o que significava aquela palavra que não combina com o vocabulário da Defesa Civil. Aliás, como a Defesa Civil avisa que vai chover quando o temporal já está instalado, os alienígenas estariam batendo na porta assim que o aviso chegasse. Era só mandar entrar e fazer um café.
Mediante a constatação de que se tratava de um ataque hacker, eu iria então procurar o meu outro chinelo perdido embaixo da cama, pelo menos o pé de chinelo seco, e iria resmungando até a área de serviço buscar um pano para enxugar o chão molhado e voltaria a dormir. Talvez feliz por aprender uma palavra nova, mas irritada pela brincadeira sem graça.

Afinal, todo mundo sabe que muitos seres humanos não são flor que se cheire. Dá mesmo uma raiva profunda às vezes. Te entendo, senhor hacker. Também tenho.
Mas tem muita gente boa por aí. Aconselho a separar o joio do trigo.
Paola Zanei

Paola Zanei é escritora, poeta e jornalista, formada em Comunicação desde 1994. Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, construiu grande parte de sua trajetória como assessora de imprensa. A escrita, no entanto, sempre esteve presente em sua vida. Desde os 15 anos, dedica-se à produção de poemas e crônicas que exploram o cotidiano, experiências pessoais e as emoções que atravessam sua jornada. É autora do livro Poemas para Queimar Certezas. Apaixonada por música, literatura e cinema, Paola traduz em palavras sua forma sensível de observar e interpretar o mundo.