Belchior, que completaria 80 anos, recebe homenagem
A obra de Belchior é celebrada com novos documentários, livros e ficção no ano em que o cantor completaria 80 anos e o álbum Alucinação faz 50
- Publicado: 25/10/2026 18:09
- Alterado: 25/10/2026 18:09
- Autor: Gabriel de Jesus
No marco da data em que completaria 80 anos de nascimento nesta segunda-feira (26), Belchior mobiliza uma série expressiva de homenagens que comprovam o interesse renovado em torno de sua trajetória artística e pessoal. O compositor cearense, que morreu em 2017 aos 70 anos, é celebrado com a exibição de filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicações literárias inéditas e a expansão de projetos audiovisuais pelo país.
A efeméride coincide também com o cinquentenário de lançamento de Alucinação, disco fundamental disponibilizado em 1976. Para marcar a data, o documentário homônimo dirigido por Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano estreia na capital paulista com sessão às 18h no CineSesc. A produção afasta convenções biográficas tradicionais para exibir as dez faixas do álbum em sincronia com imagens de arquivo que retratam as transformações sociais do Brasil sob o regime militar.
Cinema e literatura revisitam o legado de Belchior
O documentário Alucinação apoia-se em seis anos de extensa pesquisa visual em cinejornais e fitas em super-8. A narrativa conecta canções consagradas como Como Nossos Pais, Apenas um Rapaz Latino-Americano e Sujeito de Sorte aos desafios cotidianos enfrentados pela juventude e pelas classes trabalhadoras na década de 1970.
Ao detalhar a concepção do longa-metragem sobre a obra de Belchior, o diretor Renato Terra pontuou a potência política das faixas:
“Eu comecei a ouvir esse disco obsessivamente e fui percebendo que o roteiro já estava pronto dentro desse disco. Para nós, o álbum registra o confronto entre uma juventude que buscava transformar o país e as forças conservadoras que resistiam às mudanças.”
A programação do CineSesc abrange ainda a noite de autógrafos do volume analítico Belchior: Alucinação, assinado por Renato Terra e Rodrigo Salgado e lançado pela Editora Cobogó. Concomitantemente, no Rio de Janeiro, os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti lançam a segunda edição ampliada de Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior, investigação que detalha os anos em que o artista viveu em retiro voluntário pelo sul do país e pelo Uruguai.
Ficção e documentários aprofundam o autoexílio
A renovação de público em torno de Belchior ganhou força após regravações contemporâneas de Ana Cañas e a utilização de amostras sonoras de suas canções pelo rapper Emicida na faixa AmarElo. Esse movimento de resgate cultural motivou uma trilogia cinematográfica encabeçada pelo cineasta Eduardo Albergaria, iniciada com a minissérie biográfica de quatro capítulos veiculada pelo Canal Brasil e disponível no Globoplay.
O desdobramento desse projeto chegará aos cinemas comerciais em 3 de dezembro com o filme de ficção Viver é Melhor que Sonhar, estrelado por Luiz Carlos Vasconcelos no papel maduro de Belchior e Isabela Garcia interpretando sua companheira Edna Prometheu. O longa-metragem retrata a dinâmica de estrada do casal e investiga as razões que culminaram no afastamento dos palcos.
Sobre o mergulho nas vivências do músico no período de isolamento, o cineasta Eduardo Albergaria declarou:
“O filme é um road movie pela América Latina que foca objetivamente nesse processo de autoexílio. Ele não só cantou sobre isso a vida inteira. No final da vida ele fez o que ele cantou.”
A trilogia será concluída com um documentário baseado em 78 depoimentos de contemporâneos colhidos no Ceará, no Rio Grande do Sul e no Uruguai. Esse conjunto de obras confirma que o cancioneiro de Belchior permanece atual e estruturante para a reflexão crítica da identidade brasileira.