Alemanha contabilizou 24 casos de antissemitismo por dia em 2025 

Relatório oficial alerta que avanço do antissemitismo na Alemanha atinge recorde de 8.725 casos e mobiliza forças de segurança do país

Crédito: Christoph Soeder/dpa/

A Alemanha registrou um recorde alarmante ao contabilizar 8.725 denúncias de antissemitismo ao longo do ano de 2025. O dado representa um aumento de quase uma centena de ocorrências em comparação com o ano anterior, consolidando uma média crítica de aproximadamente 24 ataques diários em solo alemão. Os números foram apresentados no relatório anual da Associação Nacional de Centros de Pesquisa e Informação Sobre Antissemitismo (Rias), divulgado na última quarta-feira (17/06).

Os dados do monitoramento preocupam as autoridades governamentais e acendem um alerta sobre a segurança das comunidades judaicas na Europa. A persistência dos índices elevados revela que a hostilidade permanece em patamares graves, sem sinais de desaceleração.

Escalada da violência física e segurança reforçada nas ruas

O ambiente de tensão na capital, Berlim, e em outras grandes cidades alemãs resultou na ampliação severa do aparato de segurança. Instituições judaicas, que operam sob vigilância policial há décadas, exigiram reforço tático imediato. Um dos reflexos mais visíveis dessa nova realidade foi a instalação de postes blindados de proteção em frente a centros culturais e sinagogas, além do isolamento de eventos tradicionais.

A celebração pública de Chanucá no icônico Portão de Brandemburgo exigiu um perímetro de isolamento policial sem precedentes. O relatório detalha que a violência escalou para o ambiente físico de forma extrema em pelo menos quatro episódios graves em 2025.

O caso de maior repercussão internacional ocorreu em fevereiro de 2025, quando um turista espanhol sofreu um atentado à faca no Memorial aos Judeus Assassinados da Europa, em Berlim. A vítima sobreviveu graças à intervenção rápida de um paramédico. O agressor, natural de Leipzig, confessou em juízo que atacou o homem por tê-lo confundido com um cidadão judeu, sendo condenado a 13 anos de prisão em março deste ano.

O cotidiano das lideranças religiosas também foi impactado. No estado de Hesse, localizado no centro-oeste do país, um rabino foi agredido fisicamente de forma violenta na presença de seus filhos. Os agressores arrancaram o telefone celular de suas mãos e justificaram o ataque proferindo ofensas geopolíticas.

Debates metodológicos e críticas à atuação da Rias

A metodologia aplicada pela Rias para consolidar os índices de antissemitismo na Alemanha é alvo de debates entre pesquisadores, acadêmicos e organizações internacionais. A entidade adota o conceito institucionalizado pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Cientistas políticos e sociólogos questionam a abrangência desse termo, apontando uma linha tênue entre as críticas políticas legítimas às ações de um governo e as manifestações reais de preconceito religioso ou étnico.

Críticas contundentes partiram da Diaspora Alliance, uma organização internacional sediada em Berlim. A entidade acusa a Rias, que conta com financiamento do governo alemão, de conceder um peso desproporcional a episódios de manifestações contra o Estado de Israel, enquanto subestima o crescimento de movimentos extremistas de extrema-direita locais.

Em contrapartida, a gerência da Rias defende o modelo de captação de dados de forma preventiva. Conforme argumenta Julia Kopp, gerente de projetos da Rias Berlim:

“O antissemitismo não começa no momento em que se apresenta como um crime.”

Impacto dos conflitos internacionais e perigo de generalizações

O monitoramento aponta uma correlação direta entre o aumento drástico dos casos de antissemitismo na Europa e a eclosão da guerra no Oriente Médio, iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023. De acordo com os pesquisadores da Rias, cerca de 68% de todos os incidentes computados em solo alemão foram classificados sob a tipificação de “antissemitismo relacionado a Israel”.

Especialistas em direitos humanos e líderes comunitários alertam para os perigos de generalizações que associam cidadãos de origem judaica que vivem na Europa às decisões tomadas pelo governo de Tel Aviv. O relatório cita que diversos cidadãos alemães foram alvos de discursos de ódio mesmo após terem manifestado críticas públicas oficiais às estratégias militares israelenses na Faixa de Gaza.

Em entrevista concedida à DW, Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, destacou a importância de separar a geopolítica da identidade religiosa da população local:

“Em Israel, há uma minoria cristã e muçulmana que não é de forma alguma pequena. E os judeus na Alemanha possuem, em sua maioria, passaportes alemães”, enfatizou Schuster.

Ódio digital em plataformas sociais preocupa o governo

A internet e as redes sociais consolidaram-se como os principais vetores de propagação da intolerância e do antissemitismo virtual. O volume de ocorrências notificadas em plataformas digitais saltou de 1.996 casos no período anterior para 2.314 registros no consolidado de 2025. Esse montante representa 43% de todas as ameaças explícitas documentadas no país.

Os ataques digitais envolvem táticas de intimidação psicológica profunda. O documento expõe o caso de uma cidadã judia que recebeu, por meio do Facebook, a imagem de um frasco do gás Zyklon B — substância química utilizada pelo regime nazista para o extermínio em massa nos campos de concentração durante o Holocausto — acompanhada do texto “Ainda em estoque”.

O cenário de avanço das hostilidades virtuais provocou reações contundentes do alto escalão do funcionalismo público alemão. Felix Klein, comissário do governo federal para a Vida Judaica na Alemanha e o Combate ao Antissemitismo, manifestou profunda preocupação com o diagnóstico do país:

“O relatório mostra que o antissemitismo parece estar em ascensão na Alemanha, sem qualquer sinal de desaceleração. O antissemitismo não visa apenas o povo judeu. Ele ameaça nossa democracia, nossa liberdade e o núcleo moral do nosso país”, declarou o comissário Klein.

O temor do reconhecimento público nas ruas tem alterado a rotina de cidadãos nas grandes metrópoles, que evitam portar símbolos religiosos como a quipá ou a Estrela de Davi. Segundo Josef Schuster, a deterioração do cenário social é “particularmente negativa e especialmente alarmante nas áreas urbanas”, exigindo ações integradas de segurança pública e educação civil para conter o avanço do preconceito.

  • Publicado: 20/06/2026 15:44
  • Alterado: 20/06/2026 15:44
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: DW