Academias de ginástica refletem o comportamento do trânsito
A forma como convivemos nas academias e no trânsito revela hábitos, isolamento e desafios da vida em sociedade
- Publicado: 24/07/2026 13:45
- Alterado: 24/07/2026 13:46
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
As academias de ginástica vivem um dos maiores ciclos de expansão de sua história. A preocupação com saúde, bem-estar e qualidade de vida fez com que esses espaços se multiplicassem nos últimos anos, tornando-se parte da rotina de milhões de brasileiros.
À primeira vista, uma academia e o trânsito parecem não ter qualquer relação. Um é dedicado ao cuidado com a saúde; o outro, aos deslocamentos diários. No entanto, basta observar o comportamento das pessoas para perceber uma semelhança bem interessante.
Horários de pico e comportamentos semelhantes

Os horários de maior movimento nas academias coincidem exatamente com os horários de pico nos deslocamentos das grandes cidades. Logo cedo, na hora do almoço e no fim da tarde, pessoas organizam suas rotinas para ocupar os mesmos espaços praticamente ao mesmo tempo.
Esse acúmulo de pessoas acontece tanto nas esteiras e aparelhos de ginástica quanto no trânsito, nas avenidas, ônibus e terminais. A diferença está apenas no ambiente.
Entretanto, existe uma característica comum aos dois locais: apesar da intensa concentração de pessoas, quase ninguém se interage.
O individualismo está presente

Nas academias, o uso dos fones de ouvido tornou-se praticamente um item indispensável. A música ajuda na concentração e melhora o desempenho do treino, prática difundida pelos atletas de alto rendimento e incorporada pela maioria dos frequentadores.
No trânsito, o comportamento é semelhante. O veículo privado funciona como uma extensão do espaço familiar. Mesmo cercados por milhares de pessoas, permanecemos isolados dentro de um habitáculo de quatro rodas ou sentado em um motor com duas rodas.
Quando utilizamos o transporte coletivo, a lógica não muda muito. O celular passou a ocupar o espaço que antes era das conversas. Cada passageiro permanece conectado ao seu próprio mundo, ainda que viaje lado a lado com centenas de desconhecidos.
O resultado é curioso: nunca compartilhamos tantos espaços com tantas pessoas e, ao mesmo tempo, nunca convivemos tão pouco com elas.
Mais do que deslocamentos, relações humanas

Existe ainda outra analogia interessante. Os professores individuais na academia, chamados de personal trainers contribuem para exercícios personalizados a cada aluno que opte a contratar por esse serviço fitness, assim como os motoristas de aplicativos se adequam ao trajeto de acordo com a necessidade do passageiro e do trânsito, neste intenso fluxo de deslocamentos.
Enquanto a maioria apenas utiliza esses ambientes para cumprir sua rotina diária, esses profissionais vivem deles. Conversam, orientam, acompanham pessoas e criam relações humanas em locais onde o isolamento parece ser predominante.
Talvez eles representem justamente aquilo que está se tornando cada vez mais raro: o contato interpessoal. São profissionais cuja atividade depende da comunicação, da confiança e da interação constante.
Reflexões
Essa reflexão mostra que mobilidade não se resume à construção de ruas, ciclovias ou sistemas de transporte. Tampouco qualidade de vida depende apenas de equipamentos sofisticados ou de um bom treino personalizado. Ambos os temas passam necessariamente pela forma de como convivemos em sociedade.
Talvez o maior desafio das cidades contemporâneas não seja apenas reduzir congestionamentos ou ampliar academias, mas recuperar o senso de saúde coletiva. Cumprimentar alguém, conversar sem a intermediação das telas, respeitar quem divide o mesmo espaço e compreender que viver em comunidade também faz parte da saúde. Afinal, o comportamento que demonstramos na academia é, muitas vezes, o mesmo que levamos para o trânsito e ambos refletem a sociedade que somos.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.