ABC Cast Conexões com Villa e Cá e a coragem de sair do roteiro
Criadores do projeto A Life We Will Remember, o casal compartilha os desafios, aprendizados e escolhas de uma vida construída na estrada
- Publicado: 06/06/2026 16:16
- Alterado: 06/06/2026 17:52
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
Existe uma espécie de roteiro silencioso que acompanha boa parte da vida adulta. Estudar, trabalhar, conquistar estabilidade, comprar um imóvel, buscar uma promoção, acumular patrimônio e repetir esse ciclo na expectativa de que a felicidade esteja sempre na próxima etapa. Para muita gente, esse caminho faz sentido. Para outras, chega um momento em que surge uma pergunta inevitável. E se existir outra forma de viver? Romper esse percurso costuma exigir muito mais do que dinheiro ou oportunidade. Exige coragem.
Foi justamente diante desse questionamento que Felipe Villa e Cássia Motta começaram a repensar a vida que levavam em São Paulo. Apaixonados por viagens e fotografia, eles perceberam que grande parte dos momentos mais felizes que acumulavam acontecia longe da rotina convencional. O que começou com viagens curtas de carro e de avião acabou se transformando em algo maior. Aos poucos, o casal, conhecido nas redes e na estrada como “Villa e Cá”, passou a acompanhar outros viajantes, estudar possibilidades e entender que existia um modelo de vida diferente daquele que haviam aprendido como único caminho possível. “A gente começou a acompanhar alguns outros casais que viajavam pelo Brasil e pelo mundo. E aí a gente entendeu que isso era possível. Vamos construir isso, vamos começar a fazer disso o nosso projeto de vida”, relembra Villa ao recordar o processo que antecedeu a partida.
A decisão, no entanto, não nasceu apenas do desejo de conhecer novos lugares. Ela também foi resultado de uma reflexão sobre o que desejavam construir para o próprio futuro. Morando em um apartamento na capital paulista e vivendo uma rotina semelhante à de milhões de brasileiros, eles passaram a questionar se aquele modelo representava, de fato, os sonhos que queriam perseguir. “A gente conversou muito com pessoas mais velhas que falavam que o sonho delas era ter feito isso quando eram jovens. Só que agora já não tinham a mesma disposição ou energia. Foi aí que a gente entendeu que só precisava de coragem. E começamos a trabalhar isso dentro da gente para viver essa experiência agora, enquanto ainda somos jovens”, conta.
Hoje, mais de um ano e meio depois do início da jornada, a Land Rover Defender 1999 que os acompanha pelas Américas se transformou muito mais do que um meio de transporte. Ela passou a representar uma escolha consciente por uma vida menos previsível, mas também mais próxima das experiências que desejavam viver. É essa trajetória que conduz o oitavo episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões, dedicado a discutir não apenas viagens, mas as escolhas que levam alguém a abandonar um roteiro pronto para construir o próprio caminho.
Uma casa sobre rodas e uma rotina sem endereço

A imagem de uma viagem pelas Américas costuma despertar ideias de liberdade, paisagens exuberantes e uma rotina sem horários. Mas a realidade de quem escolhe viver na estrada está muito distante da sensação de férias permanentes frequentemente exibida nas redes sociais. Para Villa e Cá, viver essa experiência exige planejamento constante, adaptação diária e uma capacidade permanente de lidar com imprevistos. Sem endereço fixo, tarefas simples como tomar banho, abastecer água, encontrar internet estável ou decidir onde passar a noite se tornam parte central da rotina.
A estrutura compacta da Land Rover Defender exige que cada espaço tenha uma função definida. Tudo o que possuem precisa caber dentro do carro e qualquer excesso representa peso, consumo de combustível e perda de praticidade. Esse processo acabou provocando uma transformação profunda na forma como o Villa e Cá passaram a enxergar consumo e necessidade. “A gente percebeu que carregava muita coisa que não fazia falta nenhuma. Quando você vive num espaço pequeno, começa a entender o que realmente usa e o que só ocupa espaço. Isso muda completamente a relação com o consumo e com aquilo que você acredita precisar para viver bem”, compartilha Villa.



A logística diária também envolve uma relação curiosa com a tecnologia. Ao mesmo tempo em que a estrada representa uma busca por experiências mais conectadas com o mundo real, ela depende diretamente de ferramentas digitais para funcionar. Aplicativos de navegação, sistemas de comunicação, plataformas de trabalho remoto e redes sociais são fundamentais para manter o projeto ativo e financeiramente sustentável. “A internet é uma ferramenta essencial para a gente trabalhar. Muitas vezes precisamos planejar onde vamos dormir levando em consideração a qualidade do sinal. É uma contradição interessante, porque a estrada aproxima a gente da natureza, mas o trabalho continua exigindo conexão praticamente todos os dias”, observa Cássia.
Dentro desse cenário, a convivência também ganha uma dimensão completamente diferente. Ao contrário da rotina de um casal que passa parte do dia em ambientes separados, Villa e Cá compartilham praticamente todas as horas, decisões e desafios. Entre rotas, fronteiras, manutenções mecânicas e produção de conteúdo, aprender a respeitar o espaço individual dentro de poucos metros quadrados tornou-se tão importante quanto planejar o próximo destino. A experiência mostrou que viajar juntos não elimina conflitos ou diferenças, mas exige diálogo constante para que a jornada continue avançando.
Transformar a estrada em trabalho também exige planejamento

Um dos equívocos mais comuns sobre o nomadismo é imaginar que viver viajando significa abandonar responsabilidades profissionais. Na prática, Villa e Cá explicam que a expedição só se tornou possível porque deixou de ser tratada como férias e passou a funcionar como um projeto de trabalho estruturado. A estrada se transformou em escritório, estúdio de gravação, sala de edição e espaço de produção de conteúdo. Entre deslocamentos, fronteiras e paisagens inéditas, existe uma rotina invisível dedicada à gestão financeira, negociação de parcerias, planejamento de publicações e manutenção da própria operação que sustenta a viagem.
O projeto A Life We Will Remember foi construído gradualmente, acompanhando o crescimento da audiência e a consolidação de uma comunidade interessada em acompanhar a jornada. Segundo o Villa e Cá, a monetização não surgiu de forma imediata e exigiu anos de produção consistente até se transformar em uma fonte real de receita. “As pessoas veem a viagem acontecendo hoje e acham que tudo começou quando a gente colocou o carro na estrada. Mas existe muito trabalho antes disso. Foram anos produzindo conteúdo, construindo audiência, aprendendo fotografia, vídeo, edição e entendendo como transformar aquilo em um negócio sustentável”, diz Villa.
Além da produção de conteúdo, a gestão financeira se tornou um exercício permanente de adaptação. Diferentemente de uma vida convencional, onde boa parte dos custos tende a ser previsível, a estrada impõe variáveis constantes relacionadas a câmbio, combustíveis, manutenção mecânica e burocracias internacionais. “A gente aprende muito rápido que planejamento financeiro não é opcional. Tem períodos em que tudo acontece ao mesmo tempo. Você precisa abastecer, fazer manutenção, trocar alguma peça, lidar com documentação e ainda continuar produzindo conteúdo. Então a organização financeira acaba sendo uma das partes mais importantes de toda a viagem”, observa Cássia ao explicar como o casal administra as incertezas econômicas do percurso.
Os imprevistos, aliás, fazem parte da rotina com a mesma frequência que as paisagens deslumbrantes. Problemas mecânicos, mudanças climáticas repentinas, bloqueios de estrada e exigências burocráticas inesperadas frequentemente obrigam a recalcular planos construídos com meses de antecedência. Foi assim que o casal percebeu que uma expedição de longa duração depende menos da capacidade de seguir um roteiro perfeito e muito mais da habilidade de se adaptar quando as coisas não acontecem como o esperado.
As fronteiras que mudaram a forma de enxergar as pessoas

Ao longo da viagem, Villa e Cá cruzaram fronteiras que exigiram documentação, planejamento e paciência. Mas, segundo eles, os maiores aprendizados não vieram dos processos burocráticos nem das diferenças geográficas encontradas pelo caminho, vieram das pessoas. A experiência de percorrer diferentes países das Américas acabou revelando uma realidade muito diferente daquela que frequentemente aparece nos noticiários ou nas redes sociais. A cada nova cidade, o casal encontrou histórias, gestos de solidariedade e formas de acolhimento que ajudaram a transformar sua percepção sobre o mundo.
Uma das preocupações mais recorrentes que recebem de quem acompanha a expedição está relacionada à segurança. Afinal, atravessar milhares de quilômetros por regiões desconhecidas costuma despertar receios sobre violência, roubos e situações de risco. Para Villa, no entanto, a estrada ensinou uma lição que contradiz muitos desses medos. “A gente aprendeu que existem muito mais pessoas boas do que ruins. Claro que é preciso tomar cuidado, pesquisar, entender onde você está e tomar decisões responsáveis. Mas a grande maioria das pessoas que encontramos pelo caminho quis ajudar de alguma forma. Muitas vezes sem pedir nada em troca. Isso muda completamente a maneira como você passa a enxergar o mundo”, compartilha.
Essa percepção também nasceu da convivência direta com culturas muito diferentes da realidade brasileira. Ao longo dos mais de 14 países percorridos, Villa e Cá tiveram contato com hábitos, tradições e formas de organização social que desafiaram visões construídas à distância. Em muitos casos, lugares vistos inicialmente apenas como pontos de passagem acabaram se tornando experiências transformadoras. “Quando você viaja, percebe que as pessoas querem basicamente as mesmas coisas. Querem viver bem, cuidar da família, trabalhar, ter segurança e construir uma vida digna. As diferenças culturais existem e são fascinantes, mas a essência humana é muito parecida em qualquer lugar”, observa Cássia.
Assim, a jornada ampliou a compreensão do casal sobre pertencimento, empatia e convivência. Ao contrário da ideia de liberdade associada à ausência de vínculos, a estrada revelou justamente o valor das conexões humanas construídas ao longo do caminho. Entre comunidades locais, outros viajantes e desconhecidos encontrados em momentos inesperados, Villa e Cá descobriram que a sensação de estar em casa pode surgir muito longe de qualquer endereço fixo. E talvez, uma das maiores transformações provocadas pela viagem foi justamente entender que, em muitos casos, são as pessoas e, não os lugares, que realmente tornam uma experiência inesquecível.
Os lugares que transformaram a viagem em aprendizado

Ao longo da expedição, alguns países deixaram marcas profundas não apenas pelas belezas naturais, mas pela forma como ajudaram o casal a repensar hábitos, prioridades e a própria maneira de enxergar a vida. Entre os destinos que mais provocaram reflexões está a Bolívia. Para além dos cenários conhecidos pelos turistas, o país apresentou uma relação diferente com o tempo, o consumo e a conexão com a natureza. “A Bolívia mexeu muito com a gente. Existe uma relação muito forte com a Pachamama, com a terra, com os ciclos da natureza e com uma visão menos acelerada da vida. Foi um lugar que nos fez pensar bastante sobre aquilo que realmente é importante e sobre a velocidade com que a gente vivia antes de colocar o carro na estrada”, relembra Villa.
Outros países também contribuíram para ampliar a visão de mundo de Villa e Cá. Em diferentes momentos da entrevista, eles destacam como a convivência com populações locais permitiu compreender realidades econômicas, sociais e culturais muito mais complexas do que aquelas normalmente retratadas por estereótipos ou notícias internacionais. “Viajar faz você perceber o quanto a gente simplifica lugares inteiros sem realmente conhecê-los. Muitos países carregam uma imagem construída de fora para dentro, mas quando você chega, conversa com as pessoas e entende como elas vivem, tudo fica muito mais complexo e interessante”, afirma Cássia.
Ao final de cada fronteira cruzada, a sensação era de que a viagem deixava de ser apenas um deslocamento geográfico para se tornar um exercício constante de aprendizado. Villa e Cá passaram a acumular histórias, referências culturais e formas diferentes de compreender o mundo. Em muitos momentos, perceberam que o maior valor da jornada estava justamente na capacidade de retornar de cada experiência um pouco diferente das pessoas que iniciaram aquele caminho.
Quando o destino deixa de ser o Alasca

Embora o Alasca continue sendo o destino que orienta a expedição desde o início, à medida que ele deixa de parecer distante, surge uma reflexão inesperada. Durante anos, Villa e Cá organizaram decisões, investimentos e planos em torno de um objetivo claro. Nesse processo, também mudaram a forma como enxergam consumo, trabalho e sucesso. A experiência mostrou que liberdade pode estar ligada à possibilidade de escolher conscientemente quais compromissos fazem sentido para cada fase da vida. “Hoje a gente valoriza muito mais as experiências do que as coisas. Não significa que bens materiais não tenham importância, mas a viagem mostrou que aquilo que realmente fica são as histórias, os encontros e as memórias que construímos ao longo do caminho”, resumem.
Agora, pela primeira vez, Villa e Cá precisam lidar com uma pergunta para a qual ainda não existe resposta pronta. O que vem depois? A questão pode parecer simples, mas carrega um peso difícil de ignorar para quem transformou uma viagem em projeto de vida. O Alasca permanece como uma conquista simbólica importante, mas já não representa mais uma linha de chegada. E talvez seja justamente essa a maior transformação provocada pela estrada. Em algum momento do caminho, o destino deixou de ser o lugar para onde estavam indo e passou a ser a própria forma como decidiram viver.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Villa e Cá, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação da jornalista, especialista em mídias sociais, e colunista do Jornal Nossa Cidade, Paula Cabrera. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Confira a entrevista completa com Villa e Cá:
Além do canal no YouTube, o episódio com Villa e Cá pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.
Mais informações sobre a expedição e os conteúdos produzidos pelo casal podem ser acompanhadas nos canais A Life We Will Remember, no Instagram e no YouTube.