A urna não é lixeira

Escolher representantes exige conhecer trajetórias e propostas, acompanhar mandatos e assumir que cidadania também exige responsabilidade sobre cada voto

A urna não é lixeira

Crédito: (Imagem gerada com auxilio de IA)

Está chegando a hora de encarar a urna eletrônica e votar. E, com ela, começa novamente um dos curiosos rituais da democracia brasileira: durante algumas semanas, milhões de pessoas discutem o futuro do país como se estivessem escolhendo um produto na prateleira.

Alguns escolhem pela promessa. Outros pela simpatia, pela indignação, pelo sobrenome ou simplesmente por quem diz aquilo que gostariam de ouvir. Depois, passada a eleição, vem a velha pergunta: “Por que o Brasil está assim?” Talvez devêssemos começar por outra: “O que eu fiz para decidir quem teria a minha confiança?”

Voto é uma procuração entregue pelo cidadão

Eleições 2026: saiba quem tem voto obrigatório ou facultativo - Voto -Urna
(Divulgação)

Votar não deveria ser um gesto automático. É uma procuração. Entregamos a alguém uma parcela do poder de decidir sobre recursos públicos, políticas públicas e a vida coletiva. E procuração, em qualquer lugar minimamente sério, não se entrega a desconhecidos. Por que fazemos isso com tanta facilidade quando se trata do destino de uma cidade, de um Estado ou de um país?

Responsabilidade social começa exatamente onde termina a desculpa de que “alguém precisa resolver”. O governo tem responsabilidades intransferíveis. Empresas também. Uma empresa não se torna socialmente responsável apenas porque patrocina uma campanha ou publica uma fotografia fazendo uma doação. Responsabilidade aparece nas decisões que toma quando ninguém está olhando.

Cidadania não pode ser um serviço que contratamos do governo

Com o cidadão não deveria ser diferente. O Estado deve fazer aquilo que lhe compete. Empresas devem responder pelo impacto de suas escolhas. E nós, cidadãos, precisamos responder pelas nossas. Inclusive pelo voto.

Eleitor também responde pelas próprias escolhas

Não se trata de procurar o candidato perfeito. Trata-se de fazer o mínimo que uma escolha dessa dimensão exige: conhecer trajetórias, propostas, compromissos e resultados; desconfiar da promessa fácil; separar discurso de prática. Porque existe uma contradição que precisamos enfrentar: Queremos políticos responsáveis, mas nem sempre somos eleitores responsáveis.

Queremos governos eficientes, mas tratamos o voto como torcida. Depois reclamamos. Muito.

O voto não encerra a cidadania. Ele inaugura uma responsabilidade. É preciso acompanhar, cobrar, participar, reconhecer acertos e questionar erros. Não desaparecer durante quatro anos para reaparecer na próxima eleição com a mesma indignação.

E há algo ainda mais desconfortável: não podemos colocar toda a responsabilidade pelo país dentro de uma urna.

A urna não educa uma criança. Não respeita o próximo. Não pratica solidariedade. Não doa sangue. Não cria uma empresa socialmente responsável. A urna apenas registra uma escolha. Quem precisa assumir a responsabilidade somos nós.

A responsabilidade continua depois da urna

Responsabilidade Social - ESG - Diversidade - Empresas - Projetos
(Imagem/Freepik)

Nas próximas duas sextas-feiras, esta coluna continuará essa conversa. Não vamos dizer em quem você deve votar. Isso pertence a você. Vamos falar sobre algo talvez mais importante: o compromisso que deveria existir antes de apertarmos qualquer tecla.

Porque democracia não é apenas o direito de escolher. É também a coragem de se responsabilizar pela escolha. E talvez esteja na hora de parar de perguntar apenas quem vai governar o Brasil. Que tipo de cidadão estamos dispostos a ser depois que a urna fechar?

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 18/09/2026 19:01
  • Alterado: 18/09/2026 19:03
  • Autor: Dom Veiga

Veja mais

Eventos

18/09 - 20h
São Paulo
Rita Lee – Uma Autobiografia Musical
18/09 - 20h
São Paulo
Marcelo Falcão – turnê “O Legado”