A gentileza que eu não queria agora

Um lugar cedido no ônibus transforma uma viagem comum em um encontro inesperado com a idade, os cabelos brancos, a vaidade e uma dose de bom humor

A gentileza que eu não queria agora

Crédito: (Divulgação)

O que fazer quando uma pessoa que você jura que é mais velha e num sutil ato de gentileza, levanta para você sentar no ônibus?

Alternativa a) Você olha em volta e chama a velhinha mais próxima.

Alternativa b) Você finge que o celular tocou e atende agendando uma super balada em voz alta para a quarta-feira, porque o pessoal mais velho só sai no final de semana.

Alternativa c) Você aceita, agradece à pessoa tão gentil e ainda dá graças a Deus por poder seguir viagem confortavelmente sentada em um ônibus lotado.

Eu escolhi a terceira opção esta manhã, num misto de alegria e tristeza. Em um primeiro momento recusei, mas, como ela disse que ia descer logo, olhei em volta, vi aquela porção de gente chacoalhando em pé, então resolvi sentar.

Quando a gentileza faz pensar na idade

Gentileza - Ônibus
(Divulgação)

Sentada, passei a analisar o acontecido, como faço com quase tudo nessa vida, até para poder escrever melhor. E cheguei à conclusão de que eu preciso aceitar que já passei dos cinquenta anos – se bem que a moça gentil também não era tão nova assim, mas não vamos nos apegar a esse detalhe – e que isso significa que sou uma mulher madura e não uma garota. Meu espelho é que é sacana. Ele insiste em me mostrar uma pessoa de uns trinta e poucos todo dia, e eu vou acreditando.

Outro fator que pode ter contribuído para a moça me ceder o lugar é que não tingi o cabelo neste final de semana e uma mecha grisalha está começando a aparecer. Eu estava gripada e com preguiça de ir ao cabeleireiro. Até falei, toda cheia de orgulho, para a minha mãe: “Ora, vou assumir meus cinquenta e poucos anos! Cabelos brancos, fiquem à vontade!” Toda bem-resolvida. Autoestima altíssima. Pelo menos até pegar o ônibus, estava alta.

Pelo menos saí de casa maquiada e com o meu batom vermelho de sempre. Sabia que precisava compensar um pouco aquele indicativo da idade avançando. É sempre bom.

Brincadeiras à parte, não me abalei tanto assim. Realmente fiquei feliz de poder ter um pouco de conforto. Afinal, já tenho mais de cinquenta, podia ser uma avó. Avó gostosona, mas vovó. Além do mais, e pensando bem, a moça (não vou chamá-la de senhora) que levantou me viu levantar para uma outra senhora (essa sim, idosa) e uma criança se sentarem e, provavelmente, quis retribuir para mim a gentileza, já que ela ia mesmo descer. Vai ver ela foi com a minha cara.

Mas, pelo sim, pelo não, é melhor eu tingir logo esses cabelos!

Paola Zanei

Paola Zanei - Crônicas
(Divulgação)

Paola Zanei é escritora, poeta e jornalista, formada em Comunicação desde 1994. Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, construiu grande parte de sua trajetória como assessora de imprensa. A escrita, no entanto, sempre esteve presente em sua vida. Desde os 15 anos, dedica-se à produção de poemas e crônicas que exploram o cotidiano, experiências pessoais e as emoções que atravessam sua jornada. É autora do livro Poemas para Queimar Certezas. Apaixonada por música, literatura e cinema, Paola traduz em palavras sua forma sensível de observar e interpretar o mundo.

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  • Publicado: 20/08/2026 14:03
  • Alterado: 20/08/2026 14:03
  • Autor: Paola Zanei
  • Fonte: ABCdoABC

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