A febre quadrienal das figurinhas da Copa
Há febres que passam com remédio, outras se curam apenas quando a última figurinha aparece
- Publicado: 12/06/2026 13:51
- Alterado: 12/06/2026 14:55
- Autor: Paola Zanei
- Fonte: ABCdoABC
Vi um aglomeração de gente e um homem de cabelos brancos sentado no chão. Meu primeiro pensamento foi de preocupação. Será que ele não estava se sentindo bem? Mas tinha tanta gente em volta que continuei andando, sem conseguir deixar de dar uma segunda olhada, de canto de olho.
Foi aí que eu vi um garoto, de uns 7 anos, segurando um bolo de figurinhas da Copa do Mundo de futebol. Ufa, o homem não estava passando mal. Mas estava sim com a febre, aquela que dá a cada quatro anos.
Ele estava encostado no estande de troca de figurinhas da Copa do Mundo, que todos os shoppings promovem agora, para aproveitar a onda. Olhei em volta e vi muita gente sentada no chão e tinha mais um pessoal chegando. Era sábado à tarde.
Não estava se formando um clima terrível, como provavelmente diria Galvão Bueno. Muito pelo contrário. O clima era de descontração, de alegria, de comunhão de experiências, de adultos voltando a ser crianças. E crianças curtindo com seus pais, que provavelmente estão sempre ocupados.
E tinha meninas, muitas meninas com seus pais e suas mães – pais de meninas também são filhos de Deus.
Meninas que talvez nem se interessem por futebol, tenham pouco intimidade com times de países como Marrocos e Haiti e os nomes impronunciáveis de seus jogadores, e não fazem ideia do que é um impedimento, embora já tenham, como é meu caso, recebido a explicação mais de mil vezes.
Pessoas – para não incorrer em uma questão delicada de gênero – que só assistem futebol de quatro em quatro anos exclusivamente pela festa e querem o álbum porque não querem ficar de fora dessa parte específica da festa.

Foi assim que eu caí. Mãe de uma menina, que hoje tem 23 anos e não é tão fã de futebol assim, gastei uma grana considerável em um álbum da Copa que jaz, incompleto, em algum armário obscuro com outras tralhas sem uso e incompletas. Como a seleção daquele ano, de 2022, só alcançou a derrota.
E nessa brincadeira eu vi, sorrindo, o meu suado dinheirinho tomar o caminho do ralo. Foram centenas de reais que poderiam ter sido revertidos em mas 20 blusinhas, uns 10 sapatos novos e ainda um batom bem caro. Só que filho aciona na gente um botão que fica mais perto do coração do que do cérebro e faz com que nada mais seja desejável, só o sorriso aberto daquele serzinho de meu Deus.
Além disso, era uma boa estratégia para tirar ela do celular. Era um investimento com um retorno filosófico muito bem-vindo. Hoje em dia ela não me pega. Minha contribuição desse ano vai ser “nem um pacotinho de figurinhas da Copa”, jurei. E ela nem me pediu. Senta ao lado do namorado na mesa de jantar e é quando eu presencio os poucos momentos de desentendimento do casal. Escuto “Você está colando torto!”, “Não estou, não”, “Claro que está, olha aí”. É questão de nanomilímetros, mas a figurinha tem de estar precisamente colocada, sei disso bem.
Fora isso, eles seguem firme no propósito de completar o álbum. Já foram ao shopping umas três vezes, para trocar as figurinhas. Coisa de 80 unidades repetidas. Espero que tenham sentado no chão.
Apesar da possibilidade do rombo no orçamento, acho que valeu e vale a pena o investimento. Afinal, é a época em que a geração de pais analógicos pode voltar a ser criança e, ao mesmo tempo, mostrar aos filhos que nem tudo que é legal precisa ser tecnológico.
Paola Zanei

Paola Zanei é escritora, poeta e jornalista, formada em Comunicação desde 1994. Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, construiu grande parte de sua trajetória como assessora de imprensa. A escrita, no entanto, sempre esteve presente em sua vida. Desde os 15 anos, dedica-se à produção de poemas e crônicas que exploram o cotidiano, experiências pessoais e as emoções que atravessam sua jornada. É autora do livro Poemas para Queimar Certezas. Apaixonada por música, literatura e cinema, Paola traduz em palavras sua forma sensível de observar e interpretar o mundo.