A eleição terminou, mas a cidadania continua
O fim das eleições não encerra os deveres de cidadãos, empresas e governos: construir uma sociedade mais justa depende de atitudes e participação diária
- Publicado: 30/10/2026 18:50
- Alterado: 30/10/2026 18:50
- Autor: Dom veiga
Durante meses, falamos de cidadania por meio de debates sobre eleições, candidatos, promessas e escolhas. Depositamos nas urnas nossas esperanças, nossas indignações e, muitas vezes, a expectativa de que alguém finalmente resolva os problemas que enfrentamos como sociedade. Alguns foram eleitos, outros não receberam votos suficientes para conquistar um mandato. Mas, encerrada a disputa, fica uma pergunta que não deveria ser dirigida apenas aos candidatos: e agora, o que vamos fazer?
Aos que não foram eleitos, cabe refletir sobre as razões da derrota, rever caminhos e compreender que servir à sociedade não depende de um cargo público. Aos eleitos, cabe honrar cada voto recebido com trabalho, transparência e compromisso. Mas, a nós, cidadãos, também cabe uma reflexão incômoda: por que insistimos em transferir aos políticos toda a responsabilidade por uma sociedade que também ajudamos a construir, ou a abandonar, diariamente?
A responsabilidade começa nas nossas escolhas
Não podemos cobrar honestidade do poder público e aceitar pequenas desonestidades em nosso cotidiano. Não podemos exigir respeito às leis enquanto procuramos atalhos para descumpri-las. Não podemos reclamar da falta de solidariedade e permanecer indiferentes diante de quem precisa de ajuda. Tampouco podemos esperar que governos e empresas resolvam tudo enquanto nos recusamos a participar, colaborar e assumir compromissos que estejam ao nosso alcance. A cidadania também se constrói nessas atitudes cotidianas.
A responsabilidade social não é um discurso de campanha, uma promessa de candidato ou uma obrigação exclusiva de quem ocupa um cargo. Ela começa no exercício diário da cidadania, nas escolhas que fazemos quando ninguém está olhando, na educação que oferecemos aos nossos filhos, no respeito às diferenças, na maneira como tratamos as pessoas e na disposição de transformar indignação em atitude. Também exige empresas comprometidas com a sociedade e um poder público que compreenda que governar é servir, não se servir.
Transformar realidades exige participação

Há 27 anos, à frente do Hub Social Adote um Cidadão, aprendi que transformar realidades exige muito mais do que boas intenções. Exige presença, persistência, alianças sociais e, sobretudo, pessoas dispostas a fazer a sua parte sem esperar aplausos, cargos ou recompensas. Os problemas são grandes, mas a omissão de cada um também tem consequências.
Talvez tenhamos depositado expectativas demais nas urnas e responsabilidade de menos em nossas próprias mãos. O voto é uma ferramenta fundamental da democracia, mas não pode ser nosso único gesto de cidadania. A cada eleição, escolhemos representantes; todos os dias, escolhemos que tipo de sociedade ajudamos a construir.
A cidadania não termina nas urnas
Por isso, a pergunta que encerra este ciclo não é apenas para quem não recebeu votos. É para todos nós, porque a cidadania também exige atitudes: e agora, o que você vai fazer? Vai continuar esperando que alguém resolva, ou vai assumir o compromisso de transformar aquilo que está ao seu alcance? Vai continuar apontando culpados, ou vai participar das soluções?
Uma sociedade mais justa e igualitária não nasce apenas da escolha de bons representantes. Nasce quando cidadãos, empresas e governos compreendem que direitos e deveres caminham juntos e que nenhum projeto coletivo se sustenta quando todos esperam que o outro faça a sua parte.
A eleição termina. A cidadania, não. E talvez a mudança de que tanto precisamos comece exatamente quando deixamos de perguntar o que os outros farão por nós e passamos a responder, com atitudes, pelo que nós mesmos podemos fazer.
Dom Veiga

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.