A Copa do Mundo também se joga fora das quatro linhas
Trago aqui um pensamento sobre o tanto de significados que uma Copa do Mundo pode nos trazer, especialmente a nós brasileiros
- Publicado: 12/06/2026 16:07
- Alterado: 12/06/2026 16:07
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: ABCdoABC
Mais uma Copa do Mundo chegou e, com ela, renovam-se as esperanças para que o Brasil alcance, finalmente, o tão sonhado hexa. Mas quero partir aqui de uma reflexão sobre o que este evento global representa, especialmente para nós, brasileiros. Outro dia ouvi a seguinte frase: “Domingo, até quem está em guerra para para ver esporte”. Uma frase simples, de impacto. Mas eu iria além: em época de Copa do Mundo, todo mundo para.
Um raro momento para respirar
E é justamente por isso que acredito que este talvez seja um dos momentos mais oportunos depois de tantos assuntos pesados com os quais o nosso país tem lidado até aqui. Um respiro, às vezes, também é necessário.
Do começo do ano para cá, nos deparamos com guerra no Oriente Médio, detergente infectado, preocupação com declaração do Imposto de Renda, discussões sobre o fim da escala 6×1. Sem contar aquilo que já virou parte da rotina do brasileiro: o medo relacionado à segurança pública, o corre-corre para voltar mais cedo para casa, a luta diária de pais e mães que tentam chegar a tempo de buscar os filhos na escola.
De repente, chega um evento que, no fim das contas, não premia apenas quem estará dentro de campo, mas quem de verdade precisa se reunir: famílias, amigos e pessoas queridas.
Evidentemente, há quem não goste da Copa do Mundo, ou sequer acompanhe integralmente os jogos. Mas, nos dias da Seleção Brasileira, muita gente vai fazer pipoca, abrir um refrigerante e se reunir com quem ama para vibrar a cada gol.
A gente vai discutir, palpitar quem deveria ser substituído. O roteiro é quase sempre o mesmo. Aquele que tio brigando pro Endrick entrar, daí tem sempre alguém responsável pelo churrasco, que apenas fica bisbilhotando o jogo. Os fofoqueiros e fofoqueiras de plantão também, comentando sobre a separação de Vinícius Júnior e Virgínia. E o nunca inesquecível amigo que grita gol antes de todos – este talvez seja o que dê mais raiva.
Mas querem saber? É assim que brasileiro aprendeu a torcer e fazer disso algo tão singular. Copa do Mundo já está na alma do nosso povo desde berço, e não fazemos questão nenhuma de tirar este título de nós, nem este e nem os outros cinco que já temos. Vamos em busca da sexta estrela.
Quando as diferenças não entram em campo
Há quem diga que, em Copa do Mundo, a gente ignora religião, ideologia e até time do coração. Não sei se dá para ignorar completamente — talvez seja exagero dizer isso.
Mas é, sem dúvida, um dos raros momentos em que as divergências ficam em segundo plano. Pelo menos por alguns dias, elas não entram em campo.
Claro, sabemos que muitos debates e discordâncias voltam à tona depois — outubro está logo ali e, com ele, as discussões políticas e familiares também retornam. Mas, por ora, talvez seja válido permitir um pouco mais de leveza.
O que a Copa do Mundo ensina fora das quatro linhas
Neste sábado, às 19h, o Brasil estreia diante do Marrocos na Copa do Mundo. E talvez essa seja mais uma oportunidade não apenas para vestir a camisa da Seleção e torcer, mas para lembrar algo simples: viver os bons momentos também é necessário. E mais do que necessário: é social.
O ser humano foi projetado para se conectar, para pertencer, para dividir emoções — sejam elas boas ou ruins. E talvez seja exatamente por isso que a Copa do Mundo consiga mexer com aspectos que vão muito além da bola rolando.
Sem ignorar a realidade
Isso não significa fazer vistas grossas ao que acontece ao redor do torneio. Um exemplo recente foi o caso do árbitro da Somália, Omar Abdulkadir Artan, que teve sua entrada nos Estados Unidos negada, mesmo possuindo visto válido relacionado à competição. Além de outros problemas que temos observado na imigração ao país norte-americano.
Buscar conexão e enxergar a Copa do Mundo como uma oportunidade de aproximação não significa ignorar problemas ou fingir que eles não existem. Significa apenas entender que também precisamos, vez ou outra, de pausas.
Que a maior lição aconteça do lado de cá
Já que a Copa do Mundo chegou, talvez não exista motivo para não vivenciarmos este momento da forma mais verdadeira possível.
Que a principal lição deste torneio não aconteça apenas do lado de lá, dentro de campo, mas também do lado de cá. Lá, eles resolvem o jogo. Aqui, a gente marca presença, compartilha abraços, boas energias e cria memórias.
Enfim, a Copa do Mundo chegou. E claro, junto dela, a Festa Junina — porque, para um bom brasileiro, nenhum grande evento é realmente completo sem mesa farta.